Leitura de “O que é um autor?”, de Michel Foucault.

“O autor está morto”, é a afirmação da primeira parte, na qual os dois temas que baseiam o restante do texto são explicitados: a escrita é exterioridade desdobrada; a relação dela com a morte. Não basta, porém, reafirmar que a escrita não é expressão de interioridade alguma e que diante da obra (e nela, sobretudo) o autor morre mil vezes a cada palavra. Foucault deixa bem claro que o espaço vazio da escrita não é novidade há muito tempo. Como localizá-lo e trabalhá-lo, no entanto, são problemas pouco abordados até então.

Foucault começa pela questão do nome do autor. Nesse ponto, ele se esforça para mostra a dissociação entre indivíduo (escritor) e função (autor). No meu ponto de vista, tal relação é simétrica à outra: dissociação entre texto e obra (outro problema citado no texto de Foucault). Um exemplo bastante claro e didático é o caso de Henri Beyle/Stendhal. Neste caso, uma face da moeda é o indivíduo que se propôs a escrever textos, a outra é o autor cujo nome estampa as capas de O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma.[1] É dessa maneira que me parece aceitável concluir que não se trata da morte do autor, mas sim da morte do escritor. O autor seria então uma máscara mortuária vazia e o escritor seria sempre um ghost writter. É claro que as questões levantadas por Foucault continuam válidas: como precisar o recorte entre um e outro? Em que momento o escritor se torna um autor ou um texto passar a compor uma obra? É difícil (se não impossível) encontrar uma resposta satisfatória, uma vez que a criação do autor se dá por vários intermediários, por exemplo: editores, leitores, críticos, outros autores etc. Por isso Foucault afirma: “A função autor é, portanto, característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade.”

Depois de distinguido a função autor, Foucault propõe quatro traços característicos para analisá-la:

1) “A função está ligada ao sistema jurídico e institucional que contém, determina, articula o universo dos discursos”. O discurso se caracteriza, antes de tudo, como um ato. Na nossa cultura, a necessidade de atribuí-lo a um autor começa a ter importância quando se percebe a possibilidade de transgressão na realização desse ato. Foucault destaca o fim do século XVIII e o começo do XIX como momento-chave para esta característica da função autor. É quando os discursos começam a engendrar revoluções e a decapitar pessoas que se faz necessário atribuí-los a autores que possam ser culpados e punidos por esses atos. Entretanto, nesse sistema, vejo que punido de fato é o escritor, o autor tende a se beneficiar tanto da transgressão como (e sobretudo) da punição que o coroa – veja Sade, Flaubert ou Baudelaire, por exemplo.

2) “Ela não se exerce uniformemente e da mesma maneira sobre todos os discursos, em todas as épocas e em todas as formas de civilização”. Na Idade Média, enquanto o anonimato guardava a autoria de muitos textos literários, a atribuição autoral a textos científicos comprovava a veracidade do discurso; por outro lado, a partir do século XVIII, a autoria de um texto literário torna-se índice de status, agregando (ou não) valor ao discurso, enquanto os textos científicos começam a sustentar-se por si mesmos em um conjunto sistemático.

3) e 4) “Ela não é definida pela atribuição espontânea de um discurso ao seu produtor” e “ela não remete a um indivíduo real”. Como já disse, a construção do autor não é determinada única e diretamente pelo indivíduo/escritor. Ela é forjada ao longo de um processo que atravessa e classifica os textos por ele escritos e a relação desses com leitores e outros textos.

Na última parte, Foucault lança um olhar para além dos limites dos livros empíricos ao indicar que a função autor ocupa uma posição “transdiscursiva”. Isto quer dizer que ela se aplica também aos “fundadores de discursividade”, autores que, mais do que os próprios livros ou obras, produziram a possibilidade e a regra de formação de outros textos. Mais que um agrupamento ou uma repetição de textos, a discursividade é um espaço onde os textos mantêm uma relação entre si de tal maneira que, mesmo que um texto negue outro, a relação entre eles reafirma a existência desse espaço. Um dos exemplos dado por Foucault é o da psicanálise como discursividade e Freud como seu fundador.


[1] Como disse, o exemplo é didático. O que ocorre na maioria dos casos é ambivalência de um mesmo nome, como Flaubert, Kafka ou Borges, por exemplo.

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Uma resposta to “Leitura de “O que é um autor?”, de Michel Foucault.”

  1. Chico Buarque, Caetano Veloso & Cia. e a falta dos críticos (Ou: Quem lê tanta biografia?) | J13 Says:

    […] do artista que, nesse caso, nada mais é do que um autor (esbarrando em algumas questões expostas aqui e […]

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