Archive for fevereiro \26\UTC 2009

poema 003

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

(sem título)

a vida o rascunho
a poesia a limpo

poema 002

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

na embalagem dizia: “a mais nova sensação do poema inédito!”

Veja o Sol
de novo no céu.
O espetáculo infinito de sempre ser o mesmo
e nunca ser igual

como prometido

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Seguem trechos do ensaio sobre o conto de Balzac, Sarrasine. Minhas leituras de apoio foram o magistral S/Z, de Roland Barthes, um artigo de Contardo Calligaris e observações minhas.
Embora, a princípio, o texto possa parecer de interesse ultra-vital para os restritos acadêmicos das belas letras (ironia da minha parte), creio que pode-se encontrar algo de interesse mais amplo e irrestrito a todos.
Reitero, mais uma vez, a recomendação de que os mais interessados leiam S/Z de Barthes, no qual encontra-se também o conto de Balzac na íntegra.
Vamos lá.

(…)
O problema

Tive um problema com o narrador-personagem. Sua construção não funciona bem, ela é incoerente, pois ora ele é ativo (quase tirânico):

“- Vamos – respondi – a senhorita imita os tolos. Tomas um velhinho por um espectro.
– Oh! Zombas de mim. Singular tirania. O senhor quer que eu não seja eu.”

Ora ele é (demasiado) passivo:

“- Fale!
– Eu obedeço”

Problema sem solução? Talvez.

O desejo

Lendo S/Z, não encontrei resposta alguma para meu problema, no entanto encontrei algo interessante – o desejo:

(103) – Mas – ela retomou depois de um instante de silêncio durante o qual eu a admirava * O papel simbólico do narrador está prestes a mudar: a princípio, dado como uma espécie de patrão da jovem mulher, aqui ele a admira, se cala e deseja: doravante ele pedirá algo dela. (SIM. o homem objeto)
(105) Oh! como eu senti então as pontadas deste ciúme * SIM. desejo do narrador

A questão do desejo me serviu de gancho para um artigo de Contardo Calligaris à respeito do filme Desejo e reparação, do qual o que me interessa é o seguinte:

“No desejo sexual, em geral dilaceramos o outro desejado. Por exemplo, o desejo, sempre um pouco fetichista, prefere os pedaços: o decote, a voz, um olhar, a perna cortada pela cinta-liga, a queda dos rins, a forma dos lábios e por aí vai. Quando amamos a quem desejamos, o amor nos ajuda a reparar os efeitos do estilo carniceiro do nosso desejo: idealizamos o amado e a amada para que a beleza que neles enxergamos os preserve de nossa própria crueldade.”

O desejo é um tipo de violência. Metonímico, ele busca cortar a parte do todo. Calligaris fala de cortar a voz, um olhar etc., mas em Sarrasine isso acontece de maneira um pouco diferente. Vemos que a parte desejada é o indivíduo (a mulher como um todo) e que o todo do qual ela é recortada é a sociedade. Aqui começo a relacionar o desejo à castração.
No entanto, curiosamente, podemos notar que aquele que deseja (e, consequentemente, aquele que deveria ser o sujeito ativo da violência) é castrado. O narrador, por exemplo, é o sujeito ativo, o castrador (“o patrão da jovem mulher”, como Barthes diz) até o momento em que ele revela seu desejo pela mulher, quando seu papel simbólico começa a mudar.
Agora, creio, que eu comece a encontra uma possível solução para o problema do narrador.
Há duas maneira de se olhar o desejo: a primeira é aquela, o desejo como uma força violenta que busca amputar a parte desejada do todo. A outra maneira é como o avesso: o desejo indica a falta. Significa que aquele que deseja é aquele que sente falta de algo – aquele castrado. Por essa razão, o sujeito do desejo quer aplicar sobre seu objeto a violência que ele sofre durante a castração. (…) há uma dupla compensação, pela falta e pela violência.
Contudo, esse sistema não funciona no conto de Balzac. Ou melhor, ele funciona de maneira indireta. Isso porque o objeto do desejo (a mulher) não se dá ao sujeito (narrador) e, assim, a mulher castra, mais uma vez, o narrador. (…)

A sedução

(…) A contra-face do desejo é a sedução. O desejo quer a parte, a sedução a entrega. Mas ela não a entrega completamente. De fato, ela não a entrega – mostrar e esconder é o mecanismo da sedução. Ela excita o desejo com um engodo, um artifício.
(…) Ao final, a narrativa é apenas uma série de artifícios, uma sedução – não é a sedução o mecanismo do efeito artístico?

O cárcere aberto

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Caro Jorge, espero que aprecie esta tentativa de conto que elaborei a partir da sua frase. Meu sacrilégio foi tentar algo à la Borges. Confesso que não ficou muito bom, mas concordemos que não é um fracasso por completo. Já que até agora seu único trabalho foi o de me enviar a frase, escolha também o título.
Abraços,
Johnny.

Há poucos dias caiu em minhas mãos a anacrônica carta daquele que poderia ter sido um bravo companheiro e que se encontra em um momento lamentável por obra do tortuoso acaso. Infelizmente a carta é um objeto frágil em nosso tempo e o que me sobrou são os fragmentos que meu descuido não conseguiu liquidar.

“…mas saiba que não são as rochas que erguem os altos muros que me bloqueiam o horizonte, nem as grades onde meu rosto mendiga por algumas horas a cálida luz do Sol que me fazem prisioneiro aqui.
Não, meu caro. Minha prisão é anterior a este prédio. E eu a encarei pela primeira vez no vasto horizonte lá fora, nas inumeráveis estrelas do céu, na reflexão sobre a infinitude do que os homens de fé chamam Deus. A consciência da liberdade é a minha prisão! As infinitas possibilidades e apenas uma escolha…”

O remetente continuava a discorrer sobre seu estado atual. Falava de um apóstolo que escrevia cartas enquanto estava preso em Roma, de vários poetas condenados por suas obras e que mesmo assim continuavam escrevendo, de alguns revolucionários presos por escreverem “liberdade” em uma folha de papel e que foram fuzilados com essa palavra na boca.
Escreveu com paixão e dor. Por isso o texto acabava dando voltas. Havia uma parábola de um homem que fora preso por sonhar e que na prisão sonhava, como se fosse homem livre, que era um homem livre.
O papel da carta foi se esmigalhando nos meus dedos enquanto lia. A palavras se perdem na minha memória. Lembro-me, contudo, da última linha da carta. Ainda está bem viva na minha mente:

“…aquilo que me prende é o instrumento da minha liberdade.”

novo link

terça-feira, fevereiro 3, 2009

Coloquei aí do lado o link do blog do Contardo Calligaris. Ele é um psicanalista (ou psicólogo, não sei bem) que tem uma coluna na Folha de São Paulo. Achei o blog enquanto procurava um texto dele para usar num ensaio para a faculdade.
Aliás, daqui a pouco eu posto alguns trechos do ensaio.