O cárcere aberto

Caro Jorge, espero que aprecie esta tentativa de conto que elaborei a partir da sua frase. Meu sacrilégio foi tentar algo à la Borges. Confesso que não ficou muito bom, mas concordemos que não é um fracasso por completo. Já que até agora seu único trabalho foi o de me enviar a frase, escolha também o título.
Abraços,
Johnny.

Há poucos dias caiu em minhas mãos a anacrônica carta daquele que poderia ter sido um bravo companheiro e que se encontra em um momento lamentável por obra do tortuoso acaso. Infelizmente a carta é um objeto frágil em nosso tempo e o que me sobrou são os fragmentos que meu descuido não conseguiu liquidar.

“…mas saiba que não são as rochas que erguem os altos muros que me bloqueiam o horizonte, nem as grades onde meu rosto mendiga por algumas horas a cálida luz do Sol que me fazem prisioneiro aqui.
Não, meu caro. Minha prisão é anterior a este prédio. E eu a encarei pela primeira vez no vasto horizonte lá fora, nas inumeráveis estrelas do céu, na reflexão sobre a infinitude do que os homens de fé chamam Deus. A consciência da liberdade é a minha prisão! As infinitas possibilidades e apenas uma escolha…”

O remetente continuava a discorrer sobre seu estado atual. Falava de um apóstolo que escrevia cartas enquanto estava preso em Roma, de vários poetas condenados por suas obras e que mesmo assim continuavam escrevendo, de alguns revolucionários presos por escreverem “liberdade” em uma folha de papel e que foram fuzilados com essa palavra na boca.
Escreveu com paixão e dor. Por isso o texto acabava dando voltas. Havia uma parábola de um homem que fora preso por sonhar e que na prisão sonhava, como se fosse homem livre, que era um homem livre.
O papel da carta foi se esmigalhando nos meus dedos enquanto lia. A palavras se perdem na minha memória. Lembro-me, contudo, da última linha da carta. Ainda está bem viva na minha mente:

“…aquilo que me prende é o instrumento da minha liberdade.”

2 Respostas to “O cárcere aberto”

  1. Urso Says:

    Muito bom… já é a segunda vez que leio o post… da primeira não soube bem o que achar… agora gostei… não entendi mto bem o lance do Johnny (talvez se eu tivesse lido Borges) mas me fez lembrar, pode ser que não tenha nada ver, com o Estrangeiro do Camus… sei lá… vc precisa me mandar uns emails explicativos dada a minha leiguice literária…

  2. Jorge Says:

    Obrigado!
    Logo que postei este aí, pensei em deixar um comentário dizendo que, na minha opinião, havia fracassado com o texto. Bom, tendo em vista minha intenção pretendida e meus critérios, talvez tenha realmente fracassado. Mas acho que não são apenas intenções e critérios que determinam o fracasso ou o sucesso de nada. E o que vale, creio, seja mais o texto que você leu que o o que eu escrevi.
    Sugestão de leitura para você: “Ficções” ou “O aleph” (Borges) e “A invenção de Morel (Casares).
    Escreverei o e-mail, mas não espere que as explicações esclareçam alguma coisa.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: