como prometido

Seguem trechos do ensaio sobre o conto de Balzac, Sarrasine. Minhas leituras de apoio foram o magistral S/Z, de Roland Barthes, um artigo de Contardo Calligaris e observações minhas.
Embora, a princípio, o texto possa parecer de interesse ultra-vital para os restritos acadêmicos das belas letras (ironia da minha parte), creio que pode-se encontrar algo de interesse mais amplo e irrestrito a todos.
Reitero, mais uma vez, a recomendação de que os mais interessados leiam S/Z de Barthes, no qual encontra-se também o conto de Balzac na íntegra.
Vamos lá.

(…)
O problema

Tive um problema com o narrador-personagem. Sua construção não funciona bem, ela é incoerente, pois ora ele é ativo (quase tirânico):

“- Vamos – respondi – a senhorita imita os tolos. Tomas um velhinho por um espectro.
– Oh! Zombas de mim. Singular tirania. O senhor quer que eu não seja eu.”

Ora ele é (demasiado) passivo:

“- Fale!
– Eu obedeço”

Problema sem solução? Talvez.

O desejo

Lendo S/Z, não encontrei resposta alguma para meu problema, no entanto encontrei algo interessante – o desejo:

(103) – Mas – ela retomou depois de um instante de silêncio durante o qual eu a admirava * O papel simbólico do narrador está prestes a mudar: a princípio, dado como uma espécie de patrão da jovem mulher, aqui ele a admira, se cala e deseja: doravante ele pedirá algo dela. (SIM. o homem objeto)
(105) Oh! como eu senti então as pontadas deste ciúme * SIM. desejo do narrador

A questão do desejo me serviu de gancho para um artigo de Contardo Calligaris à respeito do filme Desejo e reparação, do qual o que me interessa é o seguinte:

“No desejo sexual, em geral dilaceramos o outro desejado. Por exemplo, o desejo, sempre um pouco fetichista, prefere os pedaços: o decote, a voz, um olhar, a perna cortada pela cinta-liga, a queda dos rins, a forma dos lábios e por aí vai. Quando amamos a quem desejamos, o amor nos ajuda a reparar os efeitos do estilo carniceiro do nosso desejo: idealizamos o amado e a amada para que a beleza que neles enxergamos os preserve de nossa própria crueldade.”

O desejo é um tipo de violência. Metonímico, ele busca cortar a parte do todo. Calligaris fala de cortar a voz, um olhar etc., mas em Sarrasine isso acontece de maneira um pouco diferente. Vemos que a parte desejada é o indivíduo (a mulher como um todo) e que o todo do qual ela é recortada é a sociedade. Aqui começo a relacionar o desejo à castração.
No entanto, curiosamente, podemos notar que aquele que deseja (e, consequentemente, aquele que deveria ser o sujeito ativo da violência) é castrado. O narrador, por exemplo, é o sujeito ativo, o castrador (“o patrão da jovem mulher”, como Barthes diz) até o momento em que ele revela seu desejo pela mulher, quando seu papel simbólico começa a mudar.
Agora, creio, que eu comece a encontra uma possível solução para o problema do narrador.
Há duas maneira de se olhar o desejo: a primeira é aquela, o desejo como uma força violenta que busca amputar a parte desejada do todo. A outra maneira é como o avesso: o desejo indica a falta. Significa que aquele que deseja é aquele que sente falta de algo – aquele castrado. Por essa razão, o sujeito do desejo quer aplicar sobre seu objeto a violência que ele sofre durante a castração. (…) há uma dupla compensação, pela falta e pela violência.
Contudo, esse sistema não funciona no conto de Balzac. Ou melhor, ele funciona de maneira indireta. Isso porque o objeto do desejo (a mulher) não se dá ao sujeito (narrador) e, assim, a mulher castra, mais uma vez, o narrador. (…)

A sedução

(…) A contra-face do desejo é a sedução. O desejo quer a parte, a sedução a entrega. Mas ela não a entrega completamente. De fato, ela não a entrega – mostrar e esconder é o mecanismo da sedução. Ela excita o desejo com um engodo, um artifício.
(…) Ao final, a narrativa é apenas uma série de artifícios, uma sedução – não é a sedução o mecanismo do efeito artístico?

Uma resposta to “como prometido”

  1. Jorge Says:

    Sei que o texto é um pouco longo e não se trata da coisa mais divertida no mundo. Mesmo assim, peço, àqueles bem dispostos, um leitura atenta pois (1) o texto original foi escrito por mim num francês debilitado e (2) a tradução, ainda que minha (ou por isso mesmo), segue a mesma linha debilitada…

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