Archive for março \26\UTC 2009

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quinta-feira, março 26, 2009

Coloquei aí do lado os links para o Café de Madrugada e o Blog do Ó. Como prometido aqui vai a apresentação.

O Robson que assina o Café é um amigo. Simples e ponto. Eu gosto dele, gosto de muita coisa que ele pensa, gosto da sua sensibilidade e gosto muito das coisas que ele escreve. Tem duas coisas que eu não gosto em relação ao Robson: o tempo que às vezes ele fica sem escrever; e o tempo que eu fico sem falar com ele.

A Dona Doida que assina o Blog do Ó é a Fernanda Franco e isso não quer dizer quase nada para mim.
Se um dia eu e ela nos conhecemos ou chegamos a nos ver, eu não me lembro. Creio que ela não diria algo muito diferente sobre mim – se ela soubesse de mim. Cheguei ao seu blog pelo Café do Robson. Eis aí algo que nós dois desconhecidos temos em comum. Mas o que me fez voltar lá foi ter lido “discípula da chuva” em uma das suas auto-definições. É algo que eu roubaria para mim.
Gosto dos textos e poemas delas também.

daqui a pouco

quarta-feira, março 25, 2009

eu apresento decentemente os 2 novos links aí ao lado.

As chaves

domingo, março 22, 2009

Procurava sem saber onde estava. Às vezes a gente perde as coisas que estão perto demais por procurá-las longe.
As chaves da casa, por exempo, já estavam no bolso interno da jaqueta, perto do peito, quando ele revirava os papéis da mesa da sala. Estava com pressa pra sair e por isso parecia que as chaves perdiam-se ainda mais embaixo dos papéis onde elas não estavam. Isso o irritava.
Não era apenas a raiva por estar apressado, nem por não encontrar as chaves sem as quais não poderia sair sem deixar a casa desprotegida. Era aquela incômoda sensação de saber que as chaves não estavam perdidas (ainda que ele ignorrasse onde estariam) e de que, obviamente, elas não estavam na mesa, embaixo daqueles papéis. Isso o irritava.
É claro que, se ele parasse para prestar o mínimo de atenção, perceberia que sempre estivera com as chaves. Mas era difícil prestar atenção. A última conversa que tivera com a garota ecoava em sua cabeça. Por isso ele não encontrava as chaves e ficava mais e mais apressado e irritava-se mais e mais e prestava menos atenção e continuava procurando aquilo que não estava embaixo dos papéis da mesa.
Onde estavam as chaves? Ele precisava saber, pois estava apressado para sair e não poderia fazê-lo sem trancar a porta. Mesmo com a casa vazia era preciso protegê-la. Nunca se sabe quando alguém pode entrar para levar o pouco que já não se tem.
Mas, na mesa, não estavam. Ele sabia e ignorava. Na mesa havia algumas contas pagas, outras por pagar, um monte de tranqueira, papel amassado, rascunhos, um bilhete desbotado com a caligrafia que lembrava aquela voz. A voz que ecoava na cabeça.
Onde estavam as chaves? Ele precisava saber.
Onde estava aquilo que não se nomeia? Era outra pergunta e talvez fosse a única pergunta. Ecoava na cabeça dele. Onde estava? Ela precisava saber.
A casa estava tão vazia agora. Mesmo assim era preciso trancá-la e, ainda que vazia, protegê-la. Porque a gente nunca sabe se alguém pode entrar e levar o pouco que já não resta.
Ele procurava sem saber onde estavam. As chaves que respondiam a sua pergunta.
Às vezes, a gente perde as coisas que estão perto demais por procurá-las longe.
E ele estava apressado para sair. Precisava se distanciar daquela casa vazia demais, onde ainda ecoava a última conversa.
Ele estava tão distante. Talvez fosse ela. Era como se alguma coisa houvesse se perdido. Alguma coisa difícil de ser nomeada. Onde estava? Aquilo que ficava nos recados que ele escrevia pra ela nas folhas do caderno ou que eles tinham no sorriso quando tiraram aquela foto.
Não estavam debaixo dos papéis da mesa. As contas, as tranqueiras, um bilhetinho, umas folhas amassadas, uma fotografia com dois sorrisos tão juntos que se alongavam um no outro, no mesmo – um poema com o nome dela que agora ecoava.
Procurava onde não estava.
Sabia e ignorava.
A resposta e o responder.
A casa vazia ecoava dentro dele. Era preciso encontrar as chaves para trancar, porque alguém poderia levar o que já não estava lá. Onde estava? Lá. A última conversa. Ele vazio. Vazio só com o ar que ele respirava sem sentir. O ar é leve e transparente demais para se sentir dentro da gente. Estava apressado para sair da casa vazia. Onde estavam? Ele vazio. Vazio só com o ar que respirava e o sangue que circulava sem sentir. O ar é leve e transparente…
(Onde estava? Lá.)
… mas o sangue não. É vermelho e pesado demais e circula dentro da gente sem sentir. E está lá como o ar.
Ele sabia e ignorava, até aquele momento, que as chaves sempre estiveram lá, no bolso interno da jaqueta. Perto do peito. E o que ecoava agora era o tilintar das chaves em suas mãos. Isso fazia-o sorrir.
Ele já não tinha pressa. A casa não estava vazia, porque ele estava na casa. Ele não estava vazio porque dentro dele ecoavam, sem se sentir, o ar que respirava, o sangue que circulava e aquilo que não se nomeia.
E quando ele saiu para não procurar nada, deixou a porta aberta. A gente nunca sabe quem vai chegar trazendo alguma coisa que encontrou lá fora.
O bilhete desbotado, a fotografia com dois sorrisos e o poema com o nome dela ficaram perdidos entre os outros papéis em cima da mesa.

Eu estava na minha casa e eu esperava que a chuva viesse

quinta-feira, março 19, 2009

Eu estava na minha casa e esperava que a chuva viesse.
Eu olhava o céu como fazia todos os dias, como fiz todos os dias,
eu olhava o céu e olhava também a campina que descia suavemente e se alongava desde nossa casa, a estrada que desaparecia por detrás do bosque, lá.

Eu olhava, era noite e é sempre à noite que eu olho, sempre à noite que eu me encosto à porta e olho.
Eu estava aqui, de pé como estou todos os dias, como todos os dias eu estive, eu acho.
Eu estava aqui, de pé, e eu esperava que a chuva viesse, que ela caísse sobre o campo, os campos e os bosques e nossa tranquilidade.

Eu esperava.

Não foi isso que eu sempre fiz, esperar?

(E na minha cabeça ainda eu pensava isto: não foi sempre isso que eu fiz? esperar? e isso me fez sorrir, de me ver assim.)