Archive for abril \30\UTC 2009

poema 006

quinta-feira, abril 30, 2009

(sem título)

Fazer da palavra
uma concha vazia.
Na concha, trazer água
clara, translúcida, límpida.
Com água, encher um espelho da vida.
No espelho, escrever, dia após dia,
Poesia.

um certo nariz azul…

quarta-feira, abril 29, 2009

Vestiu um dia de Sol. Calçou um par de nuvens. Com um sorriso plantado na lapela e uma gravata de luz saiu às ruas envergonhadas com seu genial nariz azul. Com uma cambalhota entrou no picadeiro. Equilibrou-se em meio-fios e rachaduras na calçada, nas catracas fez piruetas e dançou valsa. Da escada rolante tirou um lenço e do lenço uma multidão cinza. Estalou seu chicote e sacou amestradamente um leão que andava na ponta dos pés com sapatilhas de balé, um tigre que tomava chá e um elefante que plantava bananeiras. Tirou a cartola, que era um vasinho de flor, e olhou as horas no seu aquário de pulso. Do centro do picadeiro pintou a platéia a sua volta. Do marcador de ponto fez um trapézio e saltou por cima do todos, caiu de bunda no chão e chorou sorrisos. Levantou-se e saudou a todos com voz radiante de corneta apocalíptica:

RESPEITÁVEL PÚBLICO

O SHOW DEVE CONTINUAR

E curvou-se esperando os aplausos. Ninguém aplaudiu.

Ismália?

sexta-feira, abril 24, 2009

Quando acordei, eu já tinha se levantado. Eu se lavava de mais uma noite de sonhos mal-esquecidos. Pela janela do quarto vi parte do azul acima do concreto; a brisa dançava com a cortina branca. Havia uma melodia essencial no ar. Eu não podia escutá-la enquanto fazia a barba, perfumava-se, vestia-se e disfarçava-se para mais um dia. Diante do espelho eu não percebia que alguma coisa lhe faltava. Naquela manhã, no apartamento do décimo terceiro andar, neste quarto comecei a viver o dia. Eu vivia mais um que já fora começado muito antes e que continuaria muito depois. Vi eu indo embora mais uma vez daquela casa sem lar, seguindo para o trabalho, correndo pelo asfalto.

Só. O apartamento pleno pela ausência de eu estava cheio das suas riquezas. Seu tesouro acumulado: a majestosa TV, o suntuoso home-theater, a luxuosa cozinha, o magnânimo quarto, o esplêndido, a exuberante… Coisas. Espórios de um rei conquistado pelas suas posses. Mas a claridade azul do dia foi entrando pela janela com a brisa e com a música.

Dancei, vivo, dancei. Os olhos apagados da tela da TV não refletiram a dança, nem as caixas de som do home-theater escutaram a música. O apartamento ainda era mais uma caixa empilhada em cima de outras caixas, embaixo de outras caixas, ao lado de caixas empilhadas. Mas o concreto não taparia aquele minúsculo furo entre os prédios por onde o céu, em forma de azul, brisa e música, entrava.

Por isso pulei pela janela, voei pelo ar e me tornei parte daquela melodia.

Quando mais tarde eu voltou ao apartamento, não ouviu a música nem viu a dança, mas notou a janela aberta e alguma coisa lhe faltando. Pulou pela janela, voou pelo ar e se tornou parte daquele asfalto.

poema 005

quinta-feira, abril 16, 2009

“Todas as estrelas estão floridas”

Brotam luminosas as flores
no jardim sonâmbulo em que meus olhos caminham.
(Não fosse o resto do corpo tão pesado neste deserto…)

Há cinco mil rosas plantadas perto dos meus pés.
Todas tão iguais e nenhuma
como aquela que procuro nesse céu.

“O que faz sua beleza é invisível.”
Meu pequeno, eu ainda escuto teu riso quando olho as estrelas.

site

quarta-feira, abril 15, 2009

Coloquei aí do lado o link do Daniel. Um amigo que conheci na faculdade e que me fez um favor pelo qual ele ainda não me pediu desculpas. Ele escreve, desenha e faz esculturas. Tudo isso com um leve desejo assassino. Mas no fundo ele parece um cara legal.

a canção perdida

quarta-feira, abril 8, 2009

“J’avais dessiné sur le sable
Son doux visage qui me souriait”

(Paul Mauriat)

Um rosto desenhado na areiada praia. O esquecimento já no final de cada próximo passo. As ondas não têm lembrança. É por isso que elas se repetem no fatal percurso de se quebrarem onde o mar começa. É por isso que voltam. Elas vêm e vão.
O mar começa ali, onde estão os pés do menino ao lado de um rosto desenhado. Começa sem ter fim. Ele não acaba porque depois ele é horizonte e depois é céu.
O menino olhava as ondas morrendo na praia. Elas apagavam o rosto desenhado na areia e não se lembravam que naquela areia não havia nada antes que o menino ali pisasse. Depois elas também não se lembrariam que naquela areia onde não havia nada, um menino desenhou um rosto. As ondas nem se lembram que elas próprias já morreram tantas vezes naquela mesma praia.
As ondas não se lembram e por isso elas também não esquecem. O mar é a própria memória, ele começa sem ter fim. Ou não começa. Talvez seja o menino quem comece porque, diferente do mar, um dia ele acaba.
Quando as ondas apagaram todos os vestígios do rosto desenhado na areia, o menino começou a andar pela orla da praia. As ondas apagaram os passos do menino bem como os outros rostos que ele desenhou. E ele seguiu seu caminho até a ponta onde a praia acaba e o mar continua. E depois o horizonte e depois o céu.
Ele não fez a curva acompanhando a praia. Seguiu reto e seu corpo entrou no mar com as ondas. Quero voltar a ser o mar, pensou.
O mar não começa nem acaba – continua.

poema 004

terça-feira, abril 7, 2009

Comunhão

Hoje amanhã não chegou
para nos furtar com
o esquecimento da brevidade
a plenitude deste momento.
Também ontem ainda não partirá
deixando a mácula da saudade
para manchar nossos sorrisos.

Sejámos então um abraço
– neste instante entre atos –
estejámos como nós atados.

Às mãos dadas,
em volta do nosso olhar,
partilhemos bem mais que
pão e sangue, vinho e carne:
a simples e indivizível alegria
de sermos um no outro
como seríamos em nós mesmos.

E nesta ceia celebrando a vida
beijemos o Tempo o amado
e último beijo traidor.

Pois depois chega amanhã
e hoje já será ontem
e nunca mais.

(sem título)

segunda-feira, abril 6, 2009

O escuro é o silêncio da luz. Os olhos acesos e as palavras apagadas. Às vezes falta força quando chove. A casa fica assim, parece vazia de tudo. O ar é mais fino e frio, uma linha.
Com o corpo encharcado pela chuva, eu logo soube sem ouvir palavra, porque o silêncio também ensina. Eu soube ao entrar em casa que meus passos se equilibravam sobre uma linha prestes a se partir, desenhada na atmosfera apagada da sala e na chuva que já minguava. Foi sobre essa linha que a metáfora surgiu – “O escuro é o silêncio da luz”. Foi nesse momento que minha voz quebrou o vazio da sala enquanto a calha pingava as últimas gotas da chuva. A linha se partia docemente sobre meus pés.
Durante os anos em que eu carreguei a metáfora no bolso, remexi-a muitas vezes sem saber o que fazer com ela. E agora, no momento em que escrevo, já não é sobre ela que escrevo. Não é a metáfora daquela tarde em que a casa ficou sem energia por causa da chuva que está escrita aqui. Não consigo escrever com aquela metáfora – talvez porque a linha tenha se partido e a verdade daquele momento nunca mais possa ser restaurada.
A metáfora não está aqui, porque enquanto escrevo é a imagem do garoto (mas eu já era quase um homem) andando de braços abertos pela rua deserta sob a chuva que eu vejo.
O garoto que entrou encharcado na casa escura e que se equilibrou na linha prestes a se partir até a janela por onde olhava a chuva. A chuva é uma mulher líquida que beija com pingos, é uma amante que canta com voz de água e vento.
A lembrança daquela tarde em que a metáfora se acendeu em mim termina assim: depois que a linha se partiu, meus olhos na janela vendo a chuva minguar.