um certo nariz azul…

Vestiu um dia de Sol. Calçou um par de nuvens. Com um sorriso plantado na lapela e uma gravata de luz saiu às ruas envergonhadas com seu genial nariz azul. Com uma cambalhota entrou no picadeiro. Equilibrou-se em meio-fios e rachaduras na calçada, nas catracas fez piruetas e dançou valsa. Da escada rolante tirou um lenço e do lenço uma multidão cinza. Estalou seu chicote e sacou amestradamente um leão que andava na ponta dos pés com sapatilhas de balé, um tigre que tomava chá e um elefante que plantava bananeiras. Tirou a cartola, que era um vasinho de flor, e olhou as horas no seu aquário de pulso. Do centro do picadeiro pintou a platéia a sua volta. Do marcador de ponto fez um trapézio e saltou por cima do todos, caiu de bunda no chão e chorou sorrisos. Levantou-se e saudou a todos com voz radiante de corneta apocalíptica:

RESPEITÁVEL PÚBLICO

O SHOW DEVE CONTINUAR

E curvou-se esperando os aplausos. Ninguém aplaudiu.

Uma resposta to “um certo nariz azul…”

  1. Jorge Says:

    O texto foi escrito em 2007, enquanto eu trabalhava como operador de caixa na Livraria Cultura.
    Agradeço imensamente à amiga Bruna Viera, a Bu, que guardou o texto.

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