do silêncio

Creio que seja logo na primeira carta ao jovem poeta que Rilke instrui: “Não escreva poemas de amor”. O velho poeta aconselha assim, alegando que temas clássicos e abundantes na tradição como o amor podem ser um problema para os iniciantes, pois requerem certa maturidade poética.

Verdade seja dita que eu não sou um poeta maduro – mal consigo me admitir como poeta. Posso dizer sem orgulho que sou um leitor iniciado, já que leio desde o final da primeira infância. (Poderia, talvez, me dizer um escritor se a preguiça não me fosse velha inimiga). Dessa maneira, creio ser quase uma ousadia pueril tomar as palavras do poeta para embasar as minhas. Mas eis o que eu digo: não escreva sobre o amor.

É um equívoco comum de quase todos os humanos, amantes experientes ou não, fazerem a perigosa mistura: palavras e amor. É daí que saem desde as declarações mais corriqueiras aos poemas mais elaborados, passando por embaraços divertidos – “todas as cartas de amor são ridículas”, dizia o Álvaro.

Não repreendo quem faça essa perigosa mistura, uma vez que eu também a faça. (Não é saudável se contentar com todas as regras). Acontece que as palavras têm em si qualquer coisa de incomunicável, de oblíquo. Elas são representação de algo, e nessa condição, elas não são o algo. Por isso, quando penso em não escrever sobre o amor, ou mesmo não falar sobre ele é porque há uma verdade com a qual me deparei ao longo do caminho: para amar, o silêncio é essencial.

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