Ruínas

O grande tesouro deste lugar é seu enigma. A possibilidade de que tenha sido real.
(Tabajara Ruas – fragmento de Encontro)

Agora já faz cinco anos que tudo está em paz e não há um dia em que eu não encontre nos entulhos alguma lembrança dele. Eu me lembro dele, numa tarde em que caminhávamos pela av. Paulista, dizendo que sua maior alegria em relação a esse mundo era a certeza de que um dia ele irira acabar. Isso já faz muito tempo. Nessas horas, me lembro, seu olhar ficava distante e um sorriso sereno despontava no canto de sua boca. Deixe-me contar um dos meus sonhos mais íntimos, ele disse.

Como um menino, ele contava que andava pela cidade, num futuro pós-tudo. Num mundo em que a natureza, soterrada durante séculos pela maravilha da modernidade e do incessante fluxo de avanços tecnológicos, reocupou em poucos anos o espaço em que as vidas de muitos homens não viram terminadas as obras de suas mãos e cérebros afoitos por mais. No sonho ele via a floresta que escalou os imponentes edificíos do passado, fazendo com que placas, paredes, antenas, telhados aparecessem como ossos de uma carcaça. Mas não se assuste assim! – ele riu – Nem pense que eu tenho gosto pela destruição. Me alegra pensar na paz desse mundo…

Ele era tão bonito ao meu lado. Talvez fosse o olhar ou o sorriso, qualquer coisa pueril nele, que me atraía. Mas pode ser que tenha sido isso mesmo que mais me irritava nele.

Agora me lembro da vez em que ele ficou parado diante de uma velha casa abandonada. Eu já conhecia outros de seus sonhos íntimos. Você gosta tanto de coisas velhas – eu disse – por que então não viajamos para Europa? Visitamos a Grécia, alguns museus na Itália… adoraria comprar algumas roupas em Milão… Podemos ver o Coliseu! Mas ele riu.

Ele sempre ria, aquele riso doce e lindo. Ele ria de mim? Eu odiava aquele riso. E ele disse como se explicasse pacientemente para uma criança que não entende nada da vida. Esta casa velha e abandonada é agora a mesma casa destruída da minha infância, onde o mato cresce pelas feridas do assoalho. As duas casas são a mesma e são também o Partenon ou os templos sem nomes, perdidos pelo tempo em florestas asiáticas. E ele foi dizendo outras coisas que não interessavam à juventude das minhas vontades insaciáveis. Uma casa velha é universal… O que é que aquele garoto sabia do mundo? Preferia uma casa velha ao glamour da Europa! E aquele riso… A beleza das ruínas está naquilo que de mais humano elas refletem, ele disse.

Isso foi quando as TVs ainda funcionavam. Eu acabei indo para a Europa um tempo depois. Sem ele. Eu queria viver na única velocidade que faria a vida valer a pena: a máxima. Eu fui a todas as capitais do luxo, vesti todas as altas grifes, andei nos melhores carros e vivi todas as loucuras que os jornais podiam noticiar. Apaixonei-me perdidamente em cada país, em cada mês e cada paixão era maior e mais intensa que a anterior e todas elas (eu acreditava) valiam bem mais que aquele olhar de menino e aquele riso que me afrontava. O mundo era minha festa e agora era eu quem ria! (Mas, às vezes, sozinha nos banheiros dos quartos de hotéis, eu chorava enquanto tirava a maquiagem).

Mas tudo isso foi há muito tempo. Foi antes da Crise, dos bombardeios, antes de todos irem para a Guerra e das cidades serem destruídas, quando ainda se podia caminhar pela av. Paulista. Hoje tudo são escombros.

2 Respostas to “Ruínas”

  1. Jorge Says:

    ainda tem que ser mexido…

  2. aline Says:

    esse é um dos melhores.

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