Archive for julho \22\UTC 2009

poema 014

quarta-feira, julho 22, 2009

ao porvir

Aurora, prelúdio da morte.
Sinfonia luminosa queimando em minhas retinas
o horizonte.

Ascendendo ao céu, em silêncio,
anuncias ao mundo a concepção do fim.
Acendendo em mim o espírito imaculado
há muito dormente do som líquido do caos primordial.

Para o teu embrionário olho flamejante,
eu correrei, despindo o corpo das roupas,
da vergonha e da dor. Os pés nus
sobre o asfalto, a poeira, a grama, a mata,
a areia. E no mar, despindo o espírito dos músculos,
do sangue, nos nervos e dos ossos,
eu novamente serei o mito
e terei asas.

Atravessando-te a luz, uma vez mais
mover-me-ei sobre a face das águas.

Almoço

terça-feira, julho 21, 2009

Eu saí de casa e deixei as janelas abertas sem me importar com o céu. A manhã estava leve e o dia prometia ser vazio. Só, dentro de mim tocava um trompete solidário que ela nunca iria escutar. Deixei guardada no armário da cozinha uma taça de cristal tão trincada de usar, mas tão bonita.
Sim, eu fui ao supermercado. Fui comprar cebola para preparar o almoço. Eu comprei outras coisas também, mas só as cebolas importam agora. Porque, cortadas ao meio, elas lembram rosas de água (eu comprei um vinho chileno), e as pétalas líquidas e brancas tem o desenho dos trincos no cristal.
Comprei o pão que se reparte entre as mãos amigas. E foi pensando nos antigos companheiros que eu quis preparar este almoço. Mas todos foram deportados (quando não mortos) deste país estrangeiro que carrega a minha bandeira.
Não faz mal! Oh, não, não faz mal. O tempo que fluí em minhas veias e arou a minha pele disfarçou, sobre o pó, as minhas cicatrizes. As pétalas da minha taça agora são cheias e rubras. Ele me teceu lições sobre o fim das coisas (é onde elas também começam, não é?). Mostrou como a perda também traz o ganho. Ensinou o perdão e o esquecimento. As pétalas são tão doces quanto seus espinhos, afiados. É ainda violentamente rubro. Mas a dor ele não me ensinou a desfazê-la. Talvez seja a lição final.
A falta dos velhos companheiros para este almoço não me incomodou. Convidei outros que hoje compartilham melhor o segredo do silêncio comigo.
Eu chamei o vento, a luz e o som deste trompete que ela me deu quando saiu pela última vez. (Foi desde então que ele tocou). Chamei o tempo, também, é claro. E me esqueci de você, veja só!
Você me perdoe, por favor, esta cabeça prateada. Mas foi graças a ela também que você chegou. Eu deixei as janelas abertas quando saí sem me importar com o céu. E quando eu voltei e vi você, mais leve que a manhã que acabava, entrando com sua beleza em pingos e gotas. Como pude esquecê-la, minha amiga?!
Mas é claro que eu me sento aqui, sob a janela aberta, sem nenhum incômodo! E almoço e bebo com meu companheiros. Aprecio muito cada um, mas é só você que rega o meu sorriso.
Sabe, depois do último gole, quando o trompete cessar, é com este sorriso em meu rosto que eu gostaria de aprender a última lição sobre o fim das coisas. Talvez seja lá onde você começa…

poema 013

terça-feira, julho 14, 2009

eis o enigma sem nome. nada
pergunta, apenas responde. não
esconde – aponta revela. sem
mistério, aberto, vazio. a tudo
decifra.

resta saber qual é a questão.

escrevendo de olhos fechados

quarta-feira, julho 1, 2009

Estão quebrando a rua da minha casa. Enquanto eu vou ao banco, a rua vai se esfarelando sob as solas dos meus tênis e meus passos dançam entre os cacos de asfalto. Carinho de britadeira e amor de concreto. Outro prédio sendo parido na minha vizinhaça. As paredes da minha casa estão rachadas e a minha rua está quebrada. Talvez não haja volta. Talvez não haja nada.
Há menos que nada, meu saldo é negativo. Ainda posso andar e sonhar não custa nada. Viver é diferente e é sempre seguir em frente. Não há rima nem solução, o caminho de volta é cada vez mais partido. O teto da minha casa está desabando. No almoço, eu faço um brinde ao fim e a tudo que é novo depois dele. Eu vou dançando entre os cacos e fazendo deles uma escada.