I – “eu nunca vi o meu amigo chorar”

J.,

não consigo escrever a história que você me pediu. Já se passaram meses, continuo pensando naquela noite, tento escrever e nada. Frustrante. O ato de escrever é um grande fracasso.

Nos rascunhos que eu fiz nesse tempo todo, a primeira frase é sempre “Eu nunca tinha visto meu amigo chorar”. Acho que é uma boa frase para começar a história, no entanto, por mais que eu a repita, nada se desenvolve dela. É preciso esperar, eu sei. Mas a situação me incomoda demais e eu já estou de saco cheio dessa história que você me pediu.

O que me incomoda é que nesse anos todos, até aquela noite, eu realmente nunca tinha visto você chorar e eu não consigo escrever sobre isso. Sei que agora você deve se lembrar (ainda que a memória nunca tenha sido o seu forte) de inúmeras vezes em que você chorou na minha presença. Lembro-me bem de você chorar quando brigava com seu irmão fosse por causa de uma partida de video game (minha mãe nos vendo na sala e defendendo sua causa “deixa o pobrezinho jogar!”, você tinha cinco anos) fosse para chamar a atenção da sua mãe e finalizar uma briga que você tinha começado com ele (é verdade que ele provocava). Mas não é de choro de criança que eu estou falando. É de um choro mais fundo, um choro que a gente aprende quando começa a ter consciência de que alguma coisa está mesmo perdida e não será mais encontrada. Esse choro que é uma forma de nudez.

Aconteceu na minha última ida à casa da minha mãe, depois daquele churrasco. A falta de pudor é a virtude dos bêbados. Eu achei que você estava estranho por causa da discussão com sua namorada. As luzes apagadas e você sem querer papo deitado no seu colchão. Antes de dormir, eu, no meu papel de amigo, perguntei se estava tudo bem, se você queria conversar…

E eu me lembro que nesse momento meus olhos ficaram mais abertos para a escuridão do quarto porque a sua voz chegou entre lágrimas discretas. “Eu tava lembrando daquela outra casa, na Rio Claro”, você disse. “Tava lembrando daquele ano. Cara, aquela foi a melhor época, não foi?”. Mesmo espantado, eu disse sim e sorri meio triste. “Eu tava lembrando…” – maldito bêbado – “Promete que você vai escrever sobre isso? Sobre aquele ano e aquela casa?”. E eu disse sim de novo, surpreso porque você estava chorando.

Meses de rascunhos depois daquela noite, eu estou aqui expondo meu fracasso em escrever a história a que você, em um despudorado e belo momento de embriaguez, prendeu-me com uma promessa. Talvez as entrelinhas aqui não revelem que, apesar de toda a nossa amizade, eu considero você como principal culpado pela minha frustração em relação a essa história.

Um brinde a você, meu amigo!

2 Respostas to “I – “eu nunca vi o meu amigo chorar””

  1. Urso Says:

    Eu realmente não lembrava de ter te pedido isso… mas acho que naquele momento eu imaginei que você, para mim um escritor, fosse o único que pudesse eternizar aquelas boas lembranças que um dia vão se esvair em minha fraca memória…
    Eu sei que não é assim que funciona, mas os bebados são assim mesmo…

    PS:O nome da rua era Rio Claro…

  2. Jorge Says:

    Corrigi o nome. obrigado.

    mas não venha com desculpinhas. isso ainda não acabou.

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