desfecho para o conto 31

…acabou por deixar o mar há muitas centenas de quilômetros, onde jazia o corpo rival e começava sua peregrinação pelo deserto. No entanto, ainda que o vento tenha lhe roubado o nome, o sol queimado as lembranças e a solidão apagado o calor do último abraço que sentira, trazia dentro de sua cabeça o canto das gaivotas como um hieroglifo gravado na carne. Na mais absoluta e trágica ignorância a qual todos nós, cada um a seu modo, somos fadados, via no movimento sorrateiro das dunas a repetição das ondas apagadas de sua memória.
Sendo o portador do seu próprio enigma, começou por acreditar que, cruzando as areias onde nascera e vivera até então, encontraria uma outra e maravilhosa estância na qual o deserto seria substituído pelo seu especular contrário. Seria ali que ele enfim conheceria (ou lembrar-se-ia) dos cantos das gaivotas e veria (sem saber que já o conhecia) o lugar onde residia a imensidão líquida.
É verdade que há muito ignorava a palavra, bem como seu significado ou qualquer coisa que tivesse alguma referência ao que nós conhecemos como “mar”. Tinha apenas a fé que encontrar tal lugar (que ele apenas intuia, sem jamais conceber) fosse sua missão e que lá estaria sua verdade.
Foi assim que, sem saber, ele rumou cegamente para seu ponto de partida, onde suas mãos haviam matado e enterrado a mulher amada.

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