Archive for novembro \25\UTC 2009

poema 025

quarta-feira, novembro 25, 2009

folha branca do poema
corpo nu de quem se ama

e as marcas vão ficando.

poema 024

segunda-feira, novembro 16, 2009

Quantos jardins você planta
para que uma rosa floresça?

Tanto quanto são os dias
que houver para se plantar,
são os jardins qu’eu planto
para uma rosa
sem nome de rosa,
sem desenho de rosa,
sem cor nenhuma de rosa.
Apenas o perfume
– Pura beleza da Rosa.

E cada jardim começa
no solo arado da
palma dura da
minha mão pobre;

no garimpar as sementes
com as pontas dos dedos
(calejados de carícias,
doloridos de delicadezas)
para engravidar o ventre úmido da terra.

Haja sol e haja chuva
e haja ainda mais.

Porque é preciso o cíclico sacrifício
de se entregar o corpo
à fornalha que alimenta
o Sol, para qu’ele aqueça
a planta embrionária.

E é preciso a água profunda d’um poço íntimo
para regar o segredo do broto com o suor do corpo,
a saliva dos lábios
e as lágrimas.

É com os olhos secos que se faz
a necessária poda. Cortar fora
ora espinho, ora dedo,
ora mão, ora caule.
Cortar tudo que sobra:
às vezes, mesmo algumas pétalas;
e, este sempre, o próprio jardineiro
– Que não haja nada mais que a flor.

Por fim, deve a noite
desembalar o botão
para qu’ele acorde
na última gota de orvalho
e, no espanto da aurora,
seja, do jardim, a impossível rosa.

O Hoje

segunda-feira, novembro 16, 2009

A luz do Sol, através da janela do banheiro, enquanto eu estava dos dois lados do espelho, apagou o fio que me prendia a ordenação do mundo…
(Como explicar?)
Que o dia se revelou, num instante entre vazios, um manto de linha branco e sem costura alguma. Hoje foi, nesse breve soluço da realidade, um presente perfeito. Um dia sem data e sem nome. E como poderia ser de outra maneira, se não havia mais (se nunca teria havido!) calendários nem relógios? Hoje, então, um dia sem lembranças, sem promessas… Cerimônias e agendas e porta-retratos e expectativas, tudo isso a luz apagou.
E, no banheiro de azulejos azuis, dos dois lados do espelho, eu não estava. Não estivera. Não estaria. Mas ainda havia o banheiro, o espelho e a janela através da luz. E, fora, ainda mais: as casas, as calçadas, as árvores, as nuvens, o vento e o silêncio do mundo sob a luz. No banheiro, entre o espelho e a janela, a luz. E, na luz, a poeira dançando o mesmo balé mudo das estrelas. Eu era (serei?) essa poeira. Ou apenas um grão. Acho que eu fui (enfim…) feliz.
Foi num abismo entre milésimos de segundos. Porque o Sol, a trilhares de palmos do banheiro, se moveu quase um milímetro e, por isso, a luz através da janela brilhou diferente. O reflexo dela no espelho piscou como um pequeno corte, em todos os lados, no fundo das minhas retinas. E eu me lembrei de você e de que há muito você não está aqui. Eu quase tive algo parecido com saudade. Sabe? (Eu não sei…).
Quando uma nuvem cobriu a luz do Sol, eu saí do banheiro pensando que, nesse mundo, a gente vai sendo as nossas ausências.