Leitura de “François Mauriac e a liberdade”, de Jean-Paul Sartre

Duas palavras traçam o fio condutor do ensaio crítico de Sartre à respeito de François Mauriac: impaciência e indeterminação. Elas estão relacionadas tanto com a escrita quanto com a leitura do romance Fim de noite – o caso particular, no entanto, serve para o crítico francês como mote metonímico para uma visão que se estende para a literatura como um todo.
A indeterminação, para Sartre, está relacionada à liberdade – a do homem real ou fictício. É a partir dela que se cria o vínculo entre o leitor e o personagem:

O que Rogójin vai fazer, nem ele nem eu sabemos (…) ele é livre. (p. 62)

Dessa forma, Sartre abre sua crítica para uma outra esfera constituinte do romance (e da literatura) não muito explorada até então : o espaço do leitor. É nesse aspecto que ela é mais severa. Segundo o crítico-leitor, a escrita de Mauriac não permite a aproximação entre ele (Sartre) e a obra:

Terminada a leitura, porém, confesso minha decepção: em nenhum momento me deixei levar, em nenhum momento esqueci meu tempo. (p. 62)

É o distanciamento, portanto, a frustração deste leitor e o ponto de partida de sua crítica.
Esse distanciamento é causado pelo esvaziamento das impaciências do leitor, outro ponto em que Sartre concentra sua argumentação.

Mas Mauriac não se preocupa em provocar minha impaciência (…) mal sentia nascer minha curiosidade e ela é saciada além de toda medida. (p. 72)

A indeterminação, o não saber, cria o espaço vago para a curiosidade do leitor; esta gera a impaciência que é o impulso que move o leitor (motiva a leitura) para dentro (adiante) da obra. Preenchendo completamente esse espaço vago, o escritor interdita o espaço do leitor, obstrui o fluxo da leitura.
Mauriac, para Sartre, erra dessa maneira em duas linhas principais: (1) na construção da personagem Thérèse, seu caráter é determinante de seu destino e esse já é explícito ao leitor desde o começo; (2) há uma voz narrativa onisciente que não se implica na história e, pior, julga a personagem – aniquilando assim o desenvolvimento do leitor.
De maneira geral, Sartre se aproveita de Mauriac como uma baliza para “o que não fazer” – Dostoiévski seria seu contra-ponto.
Lendo o texto de Sartre, lembrei-me de Lacan (retomando Nietzsche): nomear é matar o objeto. Pelo que entendi, esse é o problema da obra de Mauriac: tudo em seu romance é nomeado, inclusive a liberdade da personagem. Volto ao início do ensaio e lá reencontro a frase:

O romance não nos dá as coisas, mas seus signos.

Fico com as perguntas: e a crítica? Ela nos daria (se é que ela dá) o signo do signo?

Uma resposta to “Leitura de “François Mauriac e a liberdade”, de Jean-Paul Sartre”

  1. Jorge Says:

    Este é o primeiro de alguns poucos textos que eu escrevi para o curso de “Perspectiva da crítica francesa”. São breves resenhas sobre alguns textos críticos da segunda metade do século XX. Se eu tivesse tempo, teria também vergonha e colocaria as referências de maneir mais clara.

    Vou postar esses textos ao longo das próximas 2 semanas.

    Leiam, questionem, divirtam-se ou passem reto. Satisfaçam-se como possível.

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