Leitura de “Rizoma”, de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

O que é rizoma? Quase metade do texto lido, muitos menos que isso compreendido e a pergunta continua. Uma pesquisa rápida na biologia ajuda: em botânica, o rizoma é uma ramificação própria de algumas plantas; é distinto porque ele pode brotar de qualquer ponto da planta e pode funcionar como raiz, talo ou ramo, independentemente de sua localização na figura da planta. Ficou mais fácil ler a proposta de Deleuze e Guattari, tendo esse ideia em mente. Para os autores, rizoma é a proposta de um novo tipo de texto – o texto da pós-modernidade. Mas para entendê-lo é preciso entender os outros dois tipos de texto aos quais ele se opõem.

O primeiro, clássico, é o livro-raiz. Biunívoco, é o texto definido pela relação, pela reflexão da raiz no tronco e vice-versa. “O livro imita o mundo, como a arte, a natureza.” (p. 13). É a dicotomia sujeito-objeto, que segundo os autores, fundamenta o discurso totalitário, fechado em si. O um se relacionada (se abre) para o outro, desde que um se veja (imite) o outro. Platão, Aristóteles; “A poética”, mimeses? Algo assim.

O segundo tipo é moderno. É o sistema-radícula. Neste sistema, a raiz originária foi abortada, há o espaço vazio e, no entanto, o dualismo (sujeito/objeto) permanece. Ainda que ausente, o texto-raiz é retomado no sistema-radícula, é repetido à exaustão em partes menores. Não é esta a proposta romântica: alcançar o todo por meio dos fragmentos? Está em Schlegel, está em Hugo. “O mundo perdeu seu pivô, o sujeito não pode nem mesmo fazer dicotomia, mas acede a uma mais alta unidade, de ambivalência ou de sobredeterminação, numa dimensão sempre suplementar àquela de seu objeto” (p.14), lembra-me Lacan¹ e a estruturação do sujeito em face do objeto perdido A e das tentativas de recuperá-lo em outros objetos a.

Até aqui, temos o que não é rizoma. Chegamos, então, ao rizoma. Tendo passado pelo clássico e pelo moderno, devo considerar o rizoma pós-moderno? Evito. Gostaria que houvesse outro nome para o espaço ao qual a proposta do rizoma é cabível. Tento explicar: 1) Não vejo no pós-moderno (seja isso o que for) uma ruptura nem uma superação do moderno (sendo isso o que já era apontado desde a metade do século XIX). Seria, no meu ponto de vista, um prolongamento deste. E ainda não encontrei quem mostrasse algo diferente. 2) É preciso atentar-se também ao fato: a relação dos textos com o clássico e o moderno não está presa à cronologia histórica. O livro-raiz, por exemplo, sendo “clássico”, pode muito bem ser encontrado em outras épocas que não a Antiguidade. Vê-se isso na relação que os autores traçam com Mao Tsé-Tung.

É no ponto em que o rizoma começa a ser abordado que eu encontro alguns problemas no texto de Deleuze e Guattari. Os autores admiram a todo instante o múltiplo (ou a multiplicidade) enquanto ao uno reservam todos os defeitos. Eles, no entanto, ignoram (propositalmente?) as limitações do próprio texto que é, para mim, centrado em uma unidade. Ao meu ver, eles escreveram um texto formalmente entre o livro-raiz e o sistema radícula à respeito de um texto que supera esses dois. Veja-se, por exemplo, a enumeração “de certas características aproximativas do rizoma”:

1- princípio de conexão;
2- princípio de heterogeneidade;
3- princípio de multiplicidade;
4- princípio de ruptura a-significante;
5- princípio de cartografia;
6- princípio de decalcomania.

Mesmo considerando que os autores, devessem ser mais conscientes (ou menos arrogantes) em relação aos limites do seu texto, não posso deixar notar como eles acertam nas indicações desse texto do porvir. Não há como não enxergar nessa enumeração aquilo que, desde os anos 1990, conhecemos como hipertexto.
Então, o rizoma é o hipertexto? Em parte sim. Em grande parte ele está no Google e na Wikipédia nossos de cada dia. É o texto dinâmico, em constante movimento, de conexões perpétuas, sem ponto de partida ou chegada, apenas passagem. No entanto, em parte, o hipertexto ainda não é rizoma. Explico: mais que textos empíricos, escritos, encadernados etc, o livro-raiz ou o sistema radícula são textos que se fazem a partir da (ou na) relação sujeito–mundo. Por isso, para que o texto rizoma seja plenamente realizado, acredito que seja necessária a constituição de um sujeito além do pós-moderno (uma nova psicologia). Tal sujeito é o grande n-1 que ainda está por ser escrito.

¹Ao que parece, estou constantemente me lembrando de Lacan.

Uma resposta to “Leitura de “Rizoma”, de Gilles Deleuze e Félix Guattari.”

  1. Washington Says:

    Legal tua forma de escrita, gostei e vou indicar para meus alunos, forte abraço

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