Leitura de “A literatura como tal”, de Gérard Genette.

Esta é a minha leitura sobre um texto que por sua vez é a leitura de alguém sobre um texto que por sua vez também é a leitura de outro alguém sobre um texto. Todos são um texto e não são o mesmo. Ou são? Vou começar novamente.

Esta é a minha leitura sobre o texto de Genette, A literatura como tal, no qual ele comenta outro texto de Paul Valéry intitulado Tel Quel. Nesse texto, Valéry aborda outro texto, muito maior, nomeado por ele e por nós todos como Literatura. Eu vou escrever a respeito do que Genette escreveu a respeito de Valéry. Eu vou escrever sobre Valéry e vou ignorar a presença de Genette entre nós dois, como se ele fosse o vidro entre meus olhos e o objeto do meu olhar. Ou melhor, como se eu visse a foto de uma janela aberta e comentasse qualquer coisa sobre ela sem considerar que eu não vejo a janela, mas apenas o recorte que o fotógrafo fez da janela.

Valéry foi um excêntrico no campo literário e, talvez por isso mesmo, foi um dos poucos que mais perto chegou do olho do furacão. Ele enxergou na literatura o jogo de combinações arbitrárias que resultam em efeitos artificiais, que criam realidades que não são reais, mas são possíveis graças ao encadeamento certo de convenções. Seu projeto visava uma teoria geral da literatura que, com rigor matemático, revelasse todas as convenções das quais a própria literatura é feita e as quais ela mesma muitas vezes ignora. Mas revelando assim as convenções do jogo literário o que ele terminaria por encontrar? Nada. Deste ponto ele parte para neste mesmo momento chegar. O que de fato ele nos revela é um sistema que se baseia sobre o vazio, tornando todas as possibilidades válidas.

A realidade está entre essas possibilidades. Afinal, não é ela constituída por diversos discursos (a História, a Filosofia, a Política etc.) que se encadeiam (e se constituem a si mesmos) de maneira arbitrária? A realidade em que vivemos e que inventamos não passa de uma outra literatura. E o real permanece inacessível.[1] Por isso, quanto mais realista for a obra literária, mais ela se mostra artificial; quanto mais se quiser como verdade do mundo (expressão de realidade), mais falsa será. “A única verdade, na arte, é a arte”. Assim, não há que se buscar fora da arte qualquer sentido ou significado para ela, seja na sua suposta relação com a realidade, seja na sua suposta relação com a vida do autor. Esta que não passa também de outra realidade inventada, pois o autor vai sendo produzido pela sua obra à medida que o escritor empírico nela vai se apagando.[2]

Nessa história de revelações e encobrimentos, nesse imenso salto no vazio ou nesse caminhar sobre o abismo, Valéry aponta seu herói: Edgar Allan Poe, o primeiro a revelar a máquina por trás dos efeitos e a formular as regras que movem as engrenagens desse sistema e a maneira como elas podem se encaixar. Em suma, foi Poe quem começou aquilo que seria o projeto de Valéry: revelar as convenções literárias e seu sistema de arbitrariedades. Ou, melhor dizendo, encarar o vazio sobre o qual a literatura se sustenta. Isso que, creio, vem sendo também tarefa da crítica.

Mas nada disso sou eu quem digo, é Valéry. Ou não é Valéry e sou eu. Talvez seja Genette entre nós dois. Talvez seja alguém antes de Valéry ou depois de mim. Ou outra combinação disso mesmo.

Esta foi a minha leitura sobre a leitura de uma leitura. E agora já é a sua.


[1] Sim, trata-se (mais uma vez) de Lacan.

[2] Retomo aqui o que já disse sobre a questão autor/escritor na leitura do texto de Foucault, O que é um autor?. Pareceu-me que Valéry (ou seria Genette?) não discorda daquilo que foi dito por mim (ou seria Foucault?).

Uma resposta to “Leitura de “A literatura como tal”, de Gérard Genette.”

  1. Chico Buarque, Caetano Veloso & Cia. e a falta dos críticos (Ou: Quem lê tanta biografia?) | J13 Says:

    […] Nas duas últimas semanas, a discussão em torno das biografias de um certo grupo de artistas tem ganhado cada vez mais espaço em jornais, redes sociais, bares, táxis, manifestações, reuniões orçamentárias, diálogos pós-coito e portas de banheiro. A melhor coisa que eu vi aparecer disso até agora foi o texto do Benjamim Moser na Folha, uma verdadeira preciosidade argumentativa. Entre idas e vindas de uma discussão hipertextual e cheia de gente atirando de todo lado, a banda passou e o Chico falou. Então, eu, que tava quieto no meu canto, comecei a conversar com os amigos mais chegados. Sem necessariamente querer defender ou atacar um lado ou outro, posto aqui alguns trechos dessas conversas nas quais o que mais me interessa são questões relacionadas à sacralização da figura do artista que, nesse caso, nada mais é do que um autor (esbarrando em algumas questões expostas aqui e aqui). […]

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