Leitura de “Ler”, de Maurice Blanchot.

O romance não nos dá as coisas, mas seus signos.
(Sartre, François Mauriac e a liberdade in: Situações, p. 61)

Um livro existe apenas pelo lado de fora.
(Deleuze e Gattari, Introdução: Rizoma in: Mil platôs, p. 12)

… a escrita de hoje se libertou do tema da expressão: ela se basta a si mesma, e, por conseqüência, não está obrigada à forma da interioridade; ela se identifica com sua própria exterioridade desdobrada.
(Foucault, O que é um autor? in: Estética: literatura e pintura, música e cinema, p. 268)

A ‘literatura’, no mau sentido, denuncia-se em quem a ignora ou dissimula e desaparece em quem a exibe.
(Genette, A literatura como tal in: Figuras, p.245)

Há, na continuidade dos textos lidos para o curso, este desabrochar do/no vazio: a imagem desta flecha que os atravessa; o desenho de um movimento para fora. Eu o identifiquei a partir do texto de Blanchot, Ler, porque, na obra literária, não há exterioridade além da leitura. Não foi isso que, pouco a pouco, os textos lidos foram apresentando?

Mas o que é essa exterioridade ou leitura? Antes, o que ela não é: o ato de mirar o olhar sobre a página aberta; a decifração da combinação de letras, espaços em branco e pontuação; a compreensão de uma série de enunciados; a conexão com outros textos; uma busca por resposta. Ainda que isso (e mais) participe do processo, há algo primordial na leitura, na sua essência: o Sim.

É nele que a leitura começa, nessa abertura ao que ainda não é a obra literária, mas que será. Abertura que é entrega e é anulação. Anulação porque é isto que ela revela: silêncio. A leitura está além do livro e nos leva para ausência absoluta cujos sentido e extensão não cabem no desperdício de esforço insuficiente para defini-los. A leitura é um movimento de retorno máximo para o que é anterior ao espaço e está  fora do tempo, para quando o espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Por isso, Blanchot afirma:

O que mais ameaça a leitura: a realidade do leitor…
(Blanchot, p. 198)

Aí está novamente a frustração de Sartre ao ler O fim da noite, de Mauriac:

Eu existia, sentia-me vivendo, bocejava um pouco…
(Sartre, p. 62)

Assim como, na escrita, há a morte do escritor, é preciso que haja, na leitura, a morte do leitor. Mas, ao contrário do indivíduo escritor, que, na sua anulação, recebe o rótulo de autor, o leitor é o anônimo que, se não a classifica, justifica a obra. Na leitura, o leitor se aliena de seu mundo, sua existência dá lugar à leitura. Essa anulação compõe a obra:

O próprio da leitura, a sua singularidade, elucida o sentido singular do verbo ‘fazer’ na expressão: ‘ela faz com que a obra se torne obra’. A palavra ‘fazer’ não indica neste caso uma atividade produtora: a leitura nada faz, nada acrescenta; ela deixa ser o que é.
(Blanchot, p. 194)

A composição da obra literária revela o outro lado do espelho que a leitura e a escrita são uma para outra. A leitura, na sua singularidade, faz a obra, porque, na sua aceitação do texto, ela também é  reescritura dele. O escritor não escreve toda a obra, ela não tem controle sobre o que será lido do seu texto (cada vez menos seu). Por outro lado, a escrita também se faz como releitura de outros textos, discursos, obras e realidades. E o leitor não lê toda a obra, porque, na sua dinâmica (a leitura), ela ultrapassa qualquer limite. (A leitura não é apreensão.)

Por fim, como no início, a leitura é incomunicável. De que outra maneira seria a consciência do vazio que ela comunica? Daí se tem o erro de tentar expressá-la, de nomeá-la, qualificando, interpretando, comentando a obra. Criam-se assim leituras fantasmas que se antepõem à obra como se ela já estivesse finalizada, quando ela não está nem mesmo iniciada.

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