Leitura de “Um amor de Swann”

O amor, coisa de muitos nomes, deus ou demônio de uma tragédia viva que é o homem apaixonado — sujeito que falta. Diz-se que o amor é o ato de dar a alguém (o objeto amado) aquilo que a gente (o sujeito amante) não tem.  Será possível? Pode ser. Pode o contrário também ser possível: o amor é o ato de roubar de alguém aquilo que ele não tem. Assim, o amor é o nome que esconde o desejo. Lembro-me de um artigo que Contardo Calligaris escreveu sobre o filme Atonement (“Desejo e reparação”, em portguês):

No desejo sexual, em geral dilaceramos o outro desejado. Por exemplo, o desejo, sempre um pouco fetichista, prefere os pedaços: o decote, a voz, um olhar, a perna cortada pela cinta-liga, a queda dos rins, a forma dos lábios e por aí vai. Quando amamos a quem desejamos, o amor nos ajuda a reparar os efeitos do estilo carniceiro do nosso desejo: idealizamos o amado e a amada para que a beleza que neles enxergamos os preserve de nossa própria crueldade.

Violento, metonímico, o desejo quer cortar a parte do todo. Calligaris fala de cortar a voz, um olhar etc., pode-se pensar também na parte desejada como um indivíduo e no todo como a sociedade — as relações desse indivíduo com outros; dessa maneira, o desejo é um cárcere. Ao contrário da idéia de Calligaris, a beleza que vemos sobre os amados pode ser não a chave que abre a prisão, mas as próprias grades da cela — um instrumento desse recorte. Em alguns casos, essa beleza que nós vemos é a beleza que nós queremos ver sobre o outro.

Dessa maneira, o amor é também uma reescritura que nós fazemos sobre o objeto recortado. Por exemplo, notamos que, assim como o narrador, durante toda a narrativa de Em busca do Tempo perdido, reescreve a arte sobre sua vida, Swann reescreve sobre Odette a sonata de Vinteuil e a pintura de Botticelli. Outros amantes, talvez, reescrevam sobre seus amados a imagem de suas mães ou as lembranças de algum prazer perdido.

Entretanto, devo dizer, não se pode considerar que ele é apenas isso. Bem sei que o amor é o nome de muitas coisas.

5 Respostas to “Leitura de “Um amor de Swann””

  1. Jorge Says:

    O texto deste post é baseado na minha leitura de “Um amor de Swann”, segundo capítulo de No caminho de Swann, de Proust. Escrevi para o curso de monografia francesa do último semestre, em que o foco era a obra Em busca do Tempo perdido.
    Eu já usei esse mesmo trecho do Calligaris, num argumento muito parecido, em outro trabalho para o curso de romance francês, cujo trechos decepados e traduzidos podem ser encontrados aqui. Mas, acredito (ou engano-me) que neste atual post a ideia esteja mais clara.

  2. Urso Says:

    Muito interessante… mas como vc mesmo disse há tantas coisas que chamamos AMOR que nem sei por onde opinar: pelo meu, pelo dela, pelo seu, pelo deles…

  3. Jorge Says:

    meu caro urso pijamoso, “opinar pelo seu” o quê?

  4. Urso Says:

    Acredito que esses amores sejam tão variados como o modo como eles se manifestem nas pessoas, desse modo, não consegui expor minha opnião sem soar muito parcial… acho que foi isso…

  5. Jorge Says:

    ahhh bom… assim sim

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: