O naúfrago no destroyer afundado

Agora eu bem que poderia estar deitado em paz e achar repouso junto aos reis e conselheiros da terra, que construíram para si lugares que agora jazem em ruínas.
(Jó cap. 3, v. 13-14)

 

E como num sonho reconheço neste arruinado e desconhecido prédio o que outrora chamei de lar. A memória falha. Atrás de mim, da porta principal, uma luz fria entra, ofuscando minhas costas…

Silenciosamente, a vista do grande hall arrasado me recebe. O imenso cadáver oco e petrificado de um Titã, onde colunas de concreto rachado estendem-se ao firmamento preto. No alto, as marcas nas paredes expõem o que deveria ter sido os primeiros três andares antes de a fúria das bombas transformá-los nos escombros sobre os quais meus pés se equilibram. Em uma das paredes cinza, uma moldura vazia; no chão, estilhaços de um velho espelho. Numa outra parede, mais ao fundo, quase escondida por uma das colunas, uma mensagem branca reflete a luz fria: “Entre mim e o fantasma…”

Meus passos ecoam no caminho à porta enferrujada do elevador. O interior é apertado demais. As paredes estreitas, pressionando meus ombros, deixam meu corpo esticado e meus pés distantes. As costelas vão sendo amassadas conforme a porta interior se fecha. Os cotovelos se tocam e as mãos angustiantes envolvem o pescoço. Não sinto mais o ar, apenas o aroma de pétalas decrépitas impregnando cada poro da minha pele, anestesiando minha língua e o céu da boca, escorrendo lentamente garganta adentro. A caixa está subindo e meu corpo está se alongando. Ela está subindo como se precedesse a inevitável queda. Talvez ela esteja caindo. Neste escuro em que apenas posso ouvir: o estalar de correntes e cabos, o gemido de engrenagens, o rangido de paredes e os parafusos lacrimejantes.

A porta se abre no corredor do quarto andar. Sob o lençol de poeira, o tapete que já foi vermelho revela, num rasgo, uma fenda no chão, por onde vejo o hall iluminado pela luz morta vinda da porta principal. Ao redor, os apartamentos estão todos abertos. No primeiro quarto as janelas estão abertas e a cortina paralítica azul não esconde o céu nublado. Consigo ver uma cama de casal vazia e, do banheiro, ouço o chuveiro aberto e uma voz feminina escoando música misturada à poeira. Em outro apartamento, vejo um velho bêbado dormindo numa poltrona surrada. Sentado no chão, aos pés do velho, de costas para mim e para ele, um menino assiste, numa TV ancestral, a um programa em preto-e-branco que deixou de ser transmitido décadas antes de a última emissora ruir.

Aproximo-me do garoto, sentindo pena da vida que ele teve até então. Uma vida que eu nem conheço e talvez só exista na cena que imagino. Estendo a mão às suas costas num ato de salvação. Como se eu pudesse salvá-lo. Como se houvesse salvação alguma. E, antes que eu o toque ou diga qualquer coisa, ele, com olhos fixos na tela luminosa, desembesta um estouro de palavras num alongado e polifônico grito. O rosto que meu olhar vai descobrindo tem os olhos chiados e a boca escancarada como um fosso por onde sai uma multidão sonora que entope todo o ambiente. Meus ouvidos custam a definir os contornos de cada som: a mulher cantando, a TV, o ronco do velho, o murmúrio do chuveiro. As palavras do menino. Eu as conheço, são uma profecia sobre o meu passado, algo que eu sei mas.

Eu me afasto e o garoto continua falando. Sigo pelo corredor onde no final encontro uma escada que leva ao andar superior. O espaço é reduzido, há outro corredor mais curto. À esquerda, na parede, a mesma tinta do hall aparece com outras letras “… um de nós deve desaparecer.”. A frase, um eco. À direita, por uma janela manca, entra a mesma luz pálida. No fim do corredor, jaz uma porta entreaberta.

Crianças! Muitas crianças! Espalham-se pela pequena sala em brincadeiras, cantorias e danças. Pulando de um sofá para o outro, escondendo-se atrás de um vaso, dando cambalhotas sobre o tapete, equilibrando-se sobre a mesa no centro ou passando por debaixo dela. Uma dúzia de meninos e meninas que me notaram e agora estão admirados com a minha presença. Silêncio. Os olhos de vitral parecem não acreditar que estou aqui ou mesmo que posso ser tocado. Ouço a respiração deles sair com um “oh!” suspirado de suas bocas. Sinto o temor e a excitação crescendo com os murmúrios. E os risos. Eu não me dou conta de que minha expressão também está entre a surpresa e o riso até que ela seja congelada pelo batente sem porta que eu vejo no fundo da sala.

Uma cortina fina e quase transparente cobre a penumbra do quarto de onde uma sombra sai, toma forma e ganha cor à luz dourada e quente da sala. É você. E talvez eu esteja em casa.

Diante da sua visão, sinto pesar nas pálpebras todos os anos da minha ausência. O abraço é a melhor e impossível maneira de resumir tantos tempos. Eu não me lembro desse doce e amargo cheiro da sua pele, um tipo que continua vivo além dos abismos da memória. Você está menor e mais frágil. No entanto, você não se curva à travessia dos anos. Rugas fundas enraizaram-se na maciez da sua testa; algumas outras também se cicatrizaram na minha. Uns como monumentos, outros como ruínas, todos nós atravessamos o Tempo.

E eles? Quem são os pequenos? Os olhos boquiabertos ainda me encaram. Eles buscam o seu abrigo da mesma maneira que eu na idade deles fiz um dia, muito antes de abandoná-lo. Imagino você os criando e contando histórias a meu respeito. Grandes aventuras, terras estrangeiras, muitos céus, mares, desertos e o além. Verdades de brincadeiras e sempre uma promessa de volta. Tanta coisa que inventamos para disfarçar em alegria nosso choro. Agora você assiste a nossa grande bagunça, as risadas e os gritos que se envolvem pelo ar, multiplicando-se em ecos. Para eles eu conto a história do que foi minha vida. A mesma história que eu me contava de como ela seria. E você olhando isso com o seu sorriso. Mas o que há nele? Que mensagem inacessível foi incrustada nessa pérola? Uma lembrança, uma saudade…

um adeus?

Aonde vão?! As luzes amarelas da sala apagadas. Por que vão? Fazer o que lá fora? Descemos todos pelo mesmo elevador que, agora, acolhe-nos a todas. Uma descida calma e lenta. As crianças cantam uma última canção: uma canção de lágrimas felizes e sorrisos tristes. Uma a uma, as mãozinhas vão bailando no ar antes de saírem pela porta do salão e serem apagadas pela silenciosa luz exterior. E você? Não a vi aqui, talvez tenha ficado. Volto. Repasso uma última vez o elevador, uma última vez o quarto andar, vazio e silencioso, uma última vez o corredor estreito e a porta. Trancada. A maçaneta emperrada. O empurrão, a força, o arrombamento. Meus olhos vazios e sala escura. No corredor, a janela torta e a luz fria do exterior.

Entre colunas rachadas e paredes cinza, eu estou — no meio de escombros e cacos de espelhos — no salão do térreo. De frente para a porta, deixo de esquecer conforme caminho em direção à luz. O que há lá, eu sei. Meus passos ecoam no caminho cego até a saída.

E como num sonho reconheço este arruinado e desconhecido prédio como o que outrora chamei de lar. A memória falha e atrás de mim, da porta principal, vem uma luz fria ofuscando minhas costas…

Uma resposta to “O naúfrago no destroyer afundado”

  1. Jorge Says:

    este conto foi escrito pela primeira vez em janeiro de 2005

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