Beckett – escrita da repetição

“Um ataque às palavras em nome da beleza”, assim, de uma maneira quase lírica, em uma carta,[1] Beckett resume e justifica sua “literatura da despalavra”, marcada, em muitos aspectos, pela forma dura e crua de expressar — uma expressão anti-lírica, anti-tudo:

A expressão de que não há nada a expressar, nada com que expressar, nada a partir do que expressar, nenhuma possibilidade de expressar, nenhum desejo de expressar, aliado à obrigação de expressar.[2]

A partir disso, começo a pensar a respeito do que estudamos sobre a escrita literária ao longo do nosso curso. Vimos neste semestre de que maneira, desde a metade do século XIX, a escrita literária se constitui como um trabalho de depuração da linguagem ordinária e cotidiana. Feito pelos artistas em busca um sentido novo que conceda a essa linguagem uma vez mais o aspecto de beleza, esse trabalho é quase alquímico — a transmutação do clichê no belo. Ou um trabalho de mineração, como afirma Beckett:

Cavar nela [linguagem] um buraco atrás do outro, até que aquilo que está à espreita por trás — seja isto alguma coisa ou nada — comece a atravessar; não consigo imaginar um objetivo mais elevado para um escritor hoje.[3]

Nesse sentido de “cavar um buraco atrás do outro” é que a escrita de Beckett se destaca do que era feito até então. Se por um lado, de um modo geral, os autores fizeram de suas escritas uma negação do clichê — seja por meio da sublimação das metáforas, da ridicularização das paródias ou da fuga non-sense do absurdo —, Beckett faz radical afirmação do clichê.

Ele recorta o clichê de todo e qualquer contexto significativo,[4] cercando-o de vazio. Assim, isolados de outros elementos aos quais nós costumeiramente os encadeamos nas nossas comunicações, os clichês são expostos e repetidos à exaustão, até que seu significado seja anulado.

A repetição é, portanto, o grande instrumento da escrita de Beckett. Presente em toda sua obra, podemos encontrá-la neste trecho de O inominável:

(…) eu, eu estou aqui. Logo, sou obrigado a acrescentar ainda o seguinte. Eis-me aqui, eu que estou aqui, que não possa falar, não posso pensar, e que devo falar, logo, pensar talvez um pouco, não posso fazê-lo somente em relação a mim que estou aqui, a aqui onde estou, mas posso um pouco, suficientemente, não sei como (…)[5]

De certa maneira, o emprego da repetição como forma de expressar o nada é reafirmada por Hansen no prefácio dessa obra:

(…) por isso, compõe a redução dos significados como um passo rumo ao silêncio e ao fim da loucura que é ter  de falar e só poder fazê-lo com palavras que não contam e nas quais não se acredita e com as quais inventaram o seu eu e o entupiram de sentido para impedi-lo de dizer quem é e de fazer o que tem de fazer até o ponto de o leitor ter de imaginar que é surdo débil de espírito que não ouve nada do que é dito nem antes nem depois e não compreende nada a mais senão o mínimo do mínimo para dizer o que diz esvaziando o seu eu das representações que não são dele (…)[6]

Andrade, no prefácio de Fim de partida é ainda mais direto:

A repetição sublinha o que há de comum, mas incomunicável, nas experiências das quatro personagens: o vazio, a solidão, a vontade irrealizável de acabar (…)[7]

Cabe ressaltar também que esse procedimento não se restringe apenas às palavras; as ações dos personagens em peças como Fim de partida e Esperando Godot propõem uma simetria, como vemos a partir de alguns textos críticos:

La question de la action est comme renvoyée du côté des personnages et de leur difficulté à agir (…) ils ‘font’ beaucoup tout au long de la pièce, ils accumulent des micro-actions successives qui ne sont habituellement pas montrées au théâtre  parce qu’elles ne sont pas considerées intéressantes ou qu’elles renvoient aux activités communes des gens ordinaires.[8] 

O girar em falso do relógio, negação da novidade e da mudança, sugere um processo de entropia, uma decadência irreversível e irremediável, que as personagens, corroídas pelo tédio e por um humor ácido derivado da consciência aguda, tentam enganar, apegando-se a rituais e hábitos cuja finalidade é matar o tempo.[9]

Tendo apresentado a repetição como elemento fundamental da escrita literária de Beckett, acredito que seria interessante pensar na relevância dessa busca pelo nada proposta pelo autor. Contudo, para não me estender muito neste comentário, deixo apenas uma breve hipótese.

Não há como questionar a importância da Segunda Guerra na experiência de vida Beckett nem o reflexo dela em sua obra. Beckett foi marcado pela vivência em uma Europa soterrada por escombros. Não apenas os escombros físicos, refletidos em seus personagens e cenários, como também os escombros discursivos, derivados tanto das ideologias quanto da produção em massa da modernidade. Considerando isso, acredito que essa busca pelo nada, pelo silêncio final, pode ser uma forma de se desfazer desses escombros e, a partir daí, propiciar espaço para a beleza.


[1] Carta a Axel Kaun, a “Carta alemã” de 1937 in: ANDRADE, Fábio de Souza. Samuel Beckett: o silêncio possível. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

[2] Diálogo com Georges Duthuit sobre a pintura de Tal Coat in: ANDRADE, Fábio de Souza. Samuel Beckett: o silêncio possível. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

[3] Carta a Axel, opus cit.

[4] A partir dessa idéia de “recorte de todo e qualquer contexto”, podemos considerar, por exemplo, os cenários de Esperando Godot e Fim de partida ou o isolamento de muito de seus personagens como Molloy, Malone, Krapp etc.

[5] BECKETT, Samuel. O inominável. Rio de Janeiro: Editora Globo, [s.d.].

[6] HANSEN, João Adolfo. Prefácio in: BECKETT, Samuel. O inominável. Rio de Janeiro: Editora Globo, [s.d.].

[7] ANDRADE, Fábio de Souza. Prefácio in: BECKETT, Samuel. Fim de partida. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

[8] RYNGAERT. Jean-Pierre. Lire En attendant Godot de Samuel Beckett. Paris : Dunod, 1993.

[9] ANDRADE, opus cit.

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