Proust – escrita do desaparecimento

Questões sobre a obra

 Enfin cette idée du Temps avait un dernier prix pour moi, elle était un aiguillon (…) qui m’avait fait considérer la vie comme digne d’être vécue. Combien me le semblait-elle davantage, maintenant qu’elle me semblait pouvoir être éclaircie, elle qu’on vit dans les ténèbres, ramenée au vrai de ce qu’elle était, elle qu’on fausse sans cesse, en somme réalisée dans un livre.[1] 

 Ao longo de toda a obra de Proust vemos como a questão de ser ou não ser um escritor é fundamental para o protagonista/narrador. É claro que podemos pensar na escrita de Proust, com seu longos parágrafos e suas inúmeras digressões, como a tentativa de cristalização de um tempo irrecuperável, do qual a própria direção da leitura (sempre para frente, buscando o desenrolar da história) tende a se afastar. Contudo, é sob esse plano que a escrita de Proust revelá-se também como um questionamento de si mesma. Ou seja, uma análise mais aprofundada da escrita proustiana poderia se concentrar na maneira como ela mesma se revela no processo de composição(ou fabricação) de uma obra literária que mesmo o Tempo ou as várias leituras e releituras feitas sobre ela não a desgastam, mas antes reafirmam sua força e amplitude.

A extensão e o tempo propostos para este texto não me permitem tal análise, por isso o que eu pretendo fazer é apontar uma síntese, considerando duas etapas simétricas de desaparecimento no processo de composição : o autor e o leitor. 

 O autor

 Que celui qui pourrait écrire un tel livre serait heureux, pensais-je, que labeur devant lui ![2]

 Em sua conferência O que é um autor ?, Michael Foucault, baseado na ideia de morte do autor, trabalha para mostrar a dissociação entre o indivíduo real que escreve – portanto, o escritor – e o autor, paralelamente à dissociação entre o texto escrito e a obra literária.

 Chegar-se-ia finalmente à idéia de que o nome do autor não passa, como o nome próprio, do interior de um discurso ao indivíduo real e exterior que o produziu…[3]

 A partir da ideia de Foucault, podemos entender que o escritor é a pessoa empírica que escreve um texto e autor é uma função que classifica esse texto, sendo também uma parte composta pela obra.

Seria impossível determinar o exato momento em que uma coisa (escritor/texto) se trasnfigura em outra (autor/obra), já que há inúmeros intermediários entre ambos, tais como : editores, leitores, críticas, outros autores etc. No entanto, podemos determinar o momento em que essa transformação tem início : é quando o escritor começa a escolher. As escolhas que cada escritor faz no processo de sua escrita marcam, pouco a pouco, seu próprio desaparecimento no discurso do texto. Assim, a escrita é um processo de morte do escritor :

 Na escrita, não se trata da manifestação ou da exaltação do gesto de escrever; não se trata da amarração de um sujeito em uma linguagem; trata-se da abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não para de desaparecer.[4]

 Sans doute, quand on est amoureux d’une oeuvre, on voudrait faire quelque chose  de tou pareil, mais tout il faut sacrifier son amour du moment, ne pas penser a son goût, mais à une vérité qui ne vous demande pas vos préférences et vous défend d’y songer.[5]

 Então, Marcel Proust, o escritor, se mata mil vezes a cada página escita e, a cada vez, ele abre espaço para a criação de uma obra literária e de um outro Marcel Proust – o autor. Essa morte é a primeira etapa da composição de Em busca do Tempo perdido – a obra, no entanto, ainda não está completa.

 O leitor

 Car ils ne seraient pas, selon moi, mes lecteurs, mais les propres lecteurs d’eux-mêmes.[6]

 A segunda etapa para a composição da obra é um outro tipo de morte. Simétrica a do autor, a morte do leitor é o outro lado do espelho. Digo isso, pensando em uma frase de Maurice Blanchot no seu ensaio Comunicação :

 O que mais ameaça a leitura: a realidade do leitor…[7]

 Segundo Blanchot, a leitura literária não é como a leitura ordinária de qualquer texto, mas como uma entrega absoluta à realidade do texto. Para realizar tal entrega, é necessário que o leitor deixe sua vida, entrando em um estado de alienação do mundo; ou, para empregar uma das imagens de Proust, é necessário que o leitor corte o fio das horas e da ordem do mundo que ele sustenta em círculo ao seu redor para entrar no círculo da leitura.

Em suam, é necessário que o leitor morra enquanto lê a obra para que ela seja completa com essa última anulação:

 O próprio da leitura, a sua singularidade, elucida o sentido singular do verbo ‘fazer’ na expressão: ‘ela faz com que a obra se torne obra’. A palavra ‘fazer’ não indica neste caso uma atividade produtora: a leitura nada faz, nada acrescenta; ela deixa ser o que é.[8]

 A obra

A composição da obra literária mostra o outro lado do espelho que a escrita e a leitura são uma para a outra. A leitura cria a obra porque, em sua anulação, ou seja, em sua aceitação do texto, ela é também a reescritura dele. O escritor não sabe como o texto vai se inscrever no leitor:

 … mon livre n’étant qu’une sorte de ces verres grossissants comme ceux que tendait à un acheteur l’opticien de Combray…[9]

 A escrita, por sua vez, se faz também como releitura de outros textos, discursos, obras e realidades, de tal maneira que ao leitor não será possível ler (assim como ao escritor não é possível escrever) toda  a obra literária, pois ela vai além dos limites de uma compreensão absoluta. Dessa maneira, uma vez estabelecida como tal, a obra literária se torna um espaço ao qual o leitor voltará sem cessar, porque, lendo outras obras, ele estará sempre relendo e reescrevendo as demais obras que ele já conhece, tal como Proust o faz enquanto escreve.


[1] PROUST, Marcel. Le temps retrouvé. Paris: Gallimard, 2009, p. 337

[2] Idem.

[3] FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: Ditos e escritos. 2 ed. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p. 274.

[4] Idem, p. 268.

[5] PROUST, Marcel. Le temps retrouvé. P.349.

[6] Idem, p. 338.

[7] BLANCHOT, Maurice. A comunicação. In: O espaço literário. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 198.

[8] Idem, p. 194.

[9] PROUST, Marcel. Le temps retrouvé. P.338.

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