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terça-feira, novembro 15, 2011

Sol alto, céu aberto. Domingo e tarde. Ruas livres, sinal fechado.

Enquanto espera, atrás do volante, pensa. Atrás dos olhos, pensando, divaga.

Devagar o pensamento pousa sobre a música do rádio. Os dedos tamborilam. Uma velha atravessa a faixa. Os olhos vão com a velha e voltam com a lembrança da avó que logo se estica à do avô. A música mudou. A casa antiga surge na fotografia em sépia da memória. Acompanha agora a melodia distante com a cabeça. Ainda pequenos, ele e o irmão, estátuas de bronze, eternamente brincam nas tardes douradas de velhos domingos. Sinal verde. Que será da casa hoje em dia? Primeira, segunda, ruas livres, terceira. O irmão, um calhorda. Nem se lembra mais da música ou do rádio. Cresceu um grandessíssimo canalha. Três urubus planando no céu aberto. Praticamente matou os pais de desgosto, o miserável. Sol alto, domingo. Lembrando bem, a última vez que viu a mãe quase feliz foi quando se casou. Avenida, quarta. A mãe sempre tão boa com os dois, muitas vezes tonta com o irmão. Acelera. No final, vivia se lamentando da vida, do filho, desgosto. Os dedos comprimem o volante. Sorriu no casamento. Amarelo, passa. Casamento de merda. Ruas livres. A mãe, já viúva, dizia que a noiva estava linda nas fotos. Limite de velocidade. Aquela vaca bêbada estava muito linda nas fotos. Acelera. O casamento não sobreviveu aos pais, mas foi enterrado depois deles. Poucos carros passeando. Depois que a mulher, ex-mulher, aquela lá não tinha mais o que lhe tirar. Abaixo do sol, três urubus em voltas. A vaca. Acelera. Nove anos de casamento, dois apartamentos, três carros, sabe-se lá quanto chifres e apenas um coração estraçalhado. Cardíaco. A puta. Acelera. E ainda com ele. Cruzamento. Uma dupla de patifes! Ônibus. Filhos da…

Morreu por divagar depressa demais.