Archive for outubro \23\UTC 2012

poema 073

terça-feira, outubro 23, 2012

um rio de memória nada
no oceano de esquecimento
deságua em ilhas de lembranças.

poema 072

terça-feira, outubro 23, 2012

tudo que faço é morrer

e vou morrendo ora bem, ora mal.
devagarinho, aos poucos
ou, às vezes, aos saltos.

morro feliz, triste, bravo, encantado.
morro em segredo
a céu aberto
dormindo
sonhando acordado.

morro sentindo muito
dando e pedindo desculpas
cantando uma música

morro durante o amor
no almoço
em trânsito
no centro da cidade
na casa de minha mãe
bebendo com os amigos

bato ponto enquanto morro

sozinho ou acompanhado
vou morrendo em cada passo

morro preparando meus filhos
para seguirem morrendo bem
ou, ao menos, morrendo melhor
do que eu mesmo já morri até aqui

morro, enfim, esquecido de morrer
e perguntando-me se morrer não seria
uma forma outra de seguir sútil
existindo do avesso.

poema 071

terça-feira, outubro 23, 2012

considerações sobre meu tempo (crono-poética)

I
Meu tempo é um espaço amplo
fronteirado por um horizonte distante
onde o mundo se acaba no Abismo.

Meu caminho são passos sobre o passado
e meu destino, agora, é a luz recém-nascida
de estrelas há muito mortas no eterno céu.

II
meu tempo é um soluço na eternidade.

poema 070

terça-feira, outubro 16, 2012

como se amar fosse fácil

para S.

(I)
amo-te.
apenas assim, simples,
fácil de dizer.
e é tão fácil dizer
que até fazer parece ser também.

E, no entanto, amo-te,
mais do que no discurso, no gesto
e no cotidiano dos passos que se repetem,
indo para o trabalho e voltando para teu abraço;
na mecânica ordinária do corpo que se repete
no se levantar, se banhar, se alimentar, se deitar;
nas horas todas do dia que se repetem
todos os dias
e nos dias que se repetem
todos a vida toda.

(II)
amo-te como se fosse fácil amar,
como se dizer que te amo fosse amar,
como se palavra e gesto fossem um só
tal como tu e eu somos nós.

(III)
ainda assim, amo-te.

na solidão infinita que é amar,
essa é única coisa que posso fazer.

na plena liberdade que é amar,
isso é tudo que sei fazer.

na recusa profunda que é amar,
nada mais quero fazer.

e na aceitação imensa que é amar,
é somente isso que faço.

(IV)
(é absurdo o amor:
não há nada mais difícil de se fazer,
mas, para quem ama,
é tão fácil como levantar as pálpebras quando se está bem acordado.)

(V)
amo-te como se esquecesse que amar é tão difícil.
e, dessa forma, ignorando esse gesto,
só posso mesmo te amar.

contudo, se me pego te amando,
surpreendo-me com a dificuldade e a complexidade
nas quais minha ação se desenvolve e se embaraça
como o vento na grama e as nuvens no céu.

pergunto-me, então, como posso te amar assim,
como é simples e fácil dizer que te amo.

(VI)
amo-te como se amar fosse fácil.
e amo-te assim porque faço do amor
uma conjugação especial do verbo ser:
sou-te,
és-me,
somo-nos.

amo-te, por fim, num gesto simples
como se dissesse que te amo.