poema 074

Allium cepa

quando aquilo que parecia tão bonito
foi desfeito e meu peito,
despedaçado,

eu não chorei.

quando aquilo que brincava de infinito
deixou oca a parte esquerda do guarda-roupa
e minha boca,

eu não chorei.

quando aquilo que se maquiava de perfeito
partiu-se porta a fora em cacos pontiagudos
e afiados,

eu não chorei.
não chorei, não.

vesti o trapo que me restava de orgulho
calcei o chinelo gasto de dignidade
e fui pra cozinha.
com uma faca grande e amolada,
e as mãos firmes e precisas,
cortei, então, a cebola
– nodoso vegetal cardíaco e aquoso —
em pedacinhos tão minúsculos

e chorei.

Uma resposta to “poema 074”

  1. Jorge Says:

    a primeira versão deste poema começou assim:

    conselho

    se aquilo que parecia tão bonito
    está desfeito e seu peito,
    despedaçado,

    chora não.

    se aquilo que brincava de infinito
    já estiver fora de questão, então,
    faça-se um bem:

    chora não.

    se aquilo que se maquiava de perfeito
    partiu-se em cacos, pontiagudos
    e afiados,

    chora não.

    não vale a pena perder
    o último trapo de orgulho

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