Beaurieux e Languille

À luz da tarde que se esvai, os corpos correm em câmera lenta sobre a areia. O sol sobre a superfície do mar. Um lugar perdido dos guias de viagem, num oceano remoto. A praia paradisíaca, tranquila. Ótima imagem para cartão-postal. Agora, é um palco para os corpos que dançam a minha frente. Suspensos no ar, na corrida, nas expressões plásticas de desejo e angústia quase cristalizadas pela luz. E minha cabeça suspensa no espaço-tempo, a poucos segundos de estar aquém e além dessa luz, dessa tarde, desse espetáculo.

“É deserta mesmo?”
“Não vejo mais ninguém aqui além de nós dois…”
“Mas você tem certeza que é seguro?”
Eu tinha. Eu, ela, a praia, o céu e o vento. Eu tinha todas as certezas. Tinha a certeza do meu desejo. A única coisa que importava.
“Isso é uma loucura!”
“Claro que é.”
“E se aparecer alguém?”
“Não vai aparecer ninguém.”
Ela vacilava entre a resistência do medo e a vontade de ceder. Dava passos curtos com as pernas se enroscando entre si e os braços cruzados sob os seios como isso oferecesse mais proteção do que o biquíni. Estava apreensiva. Olhava para a areia. Ponderava os riscos, enquanto sua mão ajeitava os cabelos atrás de uma orelha de um jeito que me fazia perder a cabeça. Ponderava os ganhos quando mordeu o lábio inferior num gesto que já não guardava apreensão nenhuma.
“Você tem certeza?”
Eu tinha. Os olhos, a boca, a pele. Deu um passo para mim. Tinha a certeza do seu desejo. A única coisa que importava.
Estávamos no topo daquele desejo, na nossa lua de mel, no cenário ideal, no paraíso. Estávamos a meio mundo de qualquer pessoa conhecida e numa praia que eu tinha certeza de ser deserta quando eles surgiram por de trás das árvores.

Eles correram. Gritos, olhos, bocas, braços, pernas. O desejo.
Ela correu. Susto, grito. O medo.
Eu fiquei parado entre correr e enfrentar. As mãos fechadas, a boca aberta. Sem certeza. Vi o facão. A lâmina, o gume. Corri tarde demais.

Um golpe horizontal certeiro. Um corte perfeito. Minha cabeça em pleno ar como os corpos correndo a minha frente. O tempo passa cada vez mais devagar. Mais devagar. Devagar. Cada movimento se cristaliza inteiramente na eternidade, revelando a derradeira fotografia de um balé. Os pés dela não tocam a areia. As lágrimas não escorrem um milímetro a mais. As pernas deles não a alcançam. Suas mãos não conseguem tocá-la. E o sol não se põe.

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