Archive for março \26\UTC 2013

poema 084

terça-feira, março 26, 2013

Casa vazia

“O mundo lá fora já é tão atulhado, voluminoso, lotado: quero abrir minha porta de casa e ver uma sala ampla, deserta, silenciosa, com espaço para os meus pensamentos.” Alex Castro

Vem, eu moro numa casa vazia
tão despudora assim despida
de toda fantasia
que eu nem sabia
que podia ser

O mundo lá fora já é tão atulhado,
voluminoso e lotado
que eu cansei de viver atolado
nas coisas que eu tenho que ter
para poder ser

Na janela falta cortina,
na parede da sala eu tenho a luz do dia
e de vez em quando a água do chuveiro é fria
mas aqui cabe toda sua companhia
para gente poder ser

O mundo lá fora é todo tão empinado,
chato e empilhado
que eu cansei de viver entulhado
das coisas que me têm que ter
para eu poder ser

Vem, eu moro numa casa vazia
um quarto sala banheiro e cozinha
todo dia à luz da noite ela é linda
a acústica é perfeita para a cantoria
e o que mais precisa
para gente poder ser
feliz?

poema 083

segunda-feira, março 25, 2013

carinho

a mão que afaga
_____________/a faca

poema 082

segunda-feira, março 18, 2013

ontem você escreveu
hoje eu li
amanhã o que importa?

se é bom ou se é uma bosta
só o tempo&acaso é quem prova

poema 081

terça-feira, março 12, 2013

sobre um encontro do poema

sempre ouvi falar do poema.
li, escutei e até respondi acertadamente
perguntas capciosas sobre o poema:
a origem do poema?
o atual paradeiro do poema?
as intenções? as segundas intenções? as reais intenções do poema?
a essas e a muitas outras questões
respondi impunemente e com louvor.
tudo falso testemunho.

nunca entendi o poema.

não importando quão bem eu respondesse sobre as implicações
ideológicas polissignificativas de sua gênese
para-verbal sob o viés do empirismo
transfigurativo contextual da teoria X
(apud LITERÁRIO, Grande Crítico in:
A leitura do poema: uma análise bem aceita em nossa época.
São Paulo: Boa Referência, 2013),
o poema me escapava. sempre.

mas, então, um dia

andava pela rua, pelo meio do trajeto desta vida,
pela estrada pedregosa já asfaltada e não via
nem selva escura, nem pedra na retina ou máquina que se abrisse.
não via nada pois andava pela calçada
e só em mim
com meus pensamentos eu me achava

entre as gentes e os carros e os semáforos
e as lojas e a fumaça e os sons e os ruídos
e o asfalto e as faltas e a pressa
e as presas e os preços e todos nós
presos em nós próprios presos
a cada um de nós que caminha
na ignota travessia sem saber que compartilha
em sua cela solitária a cadeia
de muitos elos que caminham
pela incessante corrente desta vida

eu caminhava
e ao chegar a uma esquina da velha rota
já cansada dos meus passos,
vejo-o, atravessando a rua,
vindo pelo avesso do meu destino:

o poema

desiluminou para si todos os caminhos
pelos quais eu havia passado até então
e todos em que haveria de pisar dali em diante.
sendo ele, naquele momento, toda a luz do encontro.

e pelas frestas dos meus olhos bem abertos
o poema cintilou o suspiro de uma estrela
e se ofereceu sem oferta
e se entregou sem entrega
e se deu sem dádiva
e, como se revelasse
o mistério etéreo do ar,
o poema encontrou
o nada

e ali naquela esquina eu me achava
com minha leitura enfim desdobrada
(em entendimento além do entendível,
em compreensão anterior ao pensamento)
diante desse encontro

o poema ainda hoje me escapa.

poema 080

segunda-feira, março 11, 2013

minha fé no ceticismo

porque sou cético
encaro o mistério
aceito-o e espero

que ele me desvende

algumas coisas que eu vou pensando durante um trabalho

sábado, março 2, 2013

a pior maneira de se ensinar poesia é por meio de um texto didático.
a segunda pior maneira de se ensinar poesia é ter a pretensão de que se pode ensiná-la.

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ela me disse que não sabe ler poesia.
achei muito normal. espanto-me, aliás, é com os que dizem saber lê-la.
diria a ela que está tudo bem, que a poesia não tem como pré-requisito o saber ler.

ousaria até a sussurrar que para a poesia, acho eu, basta estar vivo.

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a poesia, por meio do poema, se realiza na leitura. a escrita é morta tão logo esteja no papel, na tela, no muro, no corpo, onde quer que esteja. a vida está na leitura. por isso, eu me pergunto: o que é a biografia do poeta para a poesia? nunca li em lugar algum que drummond escrevesse com lápis faber-castell preto n. 2. por que deveria ler que sophia de mello (ah, sophia!) se casou? teve filhos? morreu? o que conheço de sophia já estava morrendo enquanto ela escrevia. e se alguma vez foi viva, foi enquanto eu li.

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o simbolismo e os poetas que se reúnem sob esse rótulo são vítimas destacadas de um dos piores, mais frequentes e mais hediondos ataques que o texto didático inflige à poesia. para minha infelicidade, ocorre que até hoje ainda não vi um texto didático que abordasse o simbolismo sem começar dizendo que “os simbolistas buscavam a elaboração de uma poesia hermética, inacessível ao público”. há pequenas e sensíveis alterações entre os textos didáticos nessa questão, mas todos eles (os que eu li) apontam, já na introdução, para a mesma e inexorável direção: o simbolismo proíbe o acesso do público à poesia.

“o simbolismo proíbe o acesso do público à poesia”

eis aí uma ideia generalizada que, em suas diferentes manifestações textuais, equivale a um estupro seguido de assassinato, ocultação de cadáver e roubo de doce de criança.

posso soar ingenuamente extremista aqui, mas creio que a única poesia hermética e inacessível é aquela que não pode ser lida. um haikai de matsuo bashô em sua escrita original, por exemplo, é hermético inacessível para mim que não leio japonês e que não encontro no conjunto de desenhos dos ideogramas qualquer sentido, sensação ou emoção de poesia (porque há casos em que um conjunto de traços e desenhos pode ser tão ou mais poético do que um poema).

haicai_historia403

e é para essas situações de inacessibilidade que a tradução (nada mais do que a releitura de um poema, assim como o poema é uma releitura de algum aspecto da poesia) abre um atalho, uma rota alternativa para o destino original. no caso, desse haikai eis a tradução (encontrei o original e a tradução aqui):

Os anos se passam –
Uma máscara de macaco
Veste o macaco.

(a tradução transporta a chama de uma vela para outra.)

[continua…]

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[próximo tópico: o que é o texto didático?]