algumas coisas que eu vou pensando durante um trabalho

a pior maneira de se ensinar poesia é por meio de um texto didático.
a segunda pior maneira de se ensinar poesia é ter a pretensão de que se pode ensiná-la.

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ela me disse que não sabe ler poesia.
achei muito normal. espanto-me, aliás, é com os que dizem saber lê-la.
diria a ela que está tudo bem, que a poesia não tem como pré-requisito o saber ler.

ousaria até a sussurrar que para a poesia, acho eu, basta estar vivo.

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a poesia, por meio do poema, se realiza na leitura. a escrita é morta tão logo esteja no papel, na tela, no muro, no corpo, onde quer que esteja. a vida está na leitura. por isso, eu me pergunto: o que é a biografia do poeta para a poesia? nunca li em lugar algum que drummond escrevesse com lápis faber-castell preto n. 2. por que deveria ler que sophia de mello (ah, sophia!) se casou? teve filhos? morreu? o que conheço de sophia já estava morrendo enquanto ela escrevia. e se alguma vez foi viva, foi enquanto eu li.

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o simbolismo e os poetas que se reúnem sob esse rótulo são vítimas destacadas de um dos piores, mais frequentes e mais hediondos ataques que o texto didático inflige à poesia. para minha infelicidade, ocorre que até hoje ainda não vi um texto didático que abordasse o simbolismo sem começar dizendo que “os simbolistas buscavam a elaboração de uma poesia hermética, inacessível ao público”. há pequenas e sensíveis alterações entre os textos didáticos nessa questão, mas todos eles (os que eu li) apontam, já na introdução, para a mesma e inexorável direção: o simbolismo proíbe o acesso do público à poesia.

“o simbolismo proíbe o acesso do público à poesia”

eis aí uma ideia generalizada que, em suas diferentes manifestações textuais, equivale a um estupro seguido de assassinato, ocultação de cadáver e roubo de doce de criança.

posso soar ingenuamente extremista aqui, mas creio que a única poesia hermética e inacessível é aquela que não pode ser lida. um haikai de matsuo bashô em sua escrita original, por exemplo, é hermético inacessível para mim que não leio japonês e que não encontro no conjunto de desenhos dos ideogramas qualquer sentido, sensação ou emoção de poesia (porque há casos em que um conjunto de traços e desenhos pode ser tão ou mais poético do que um poema).

haicai_historia403

e é para essas situações de inacessibilidade que a tradução (nada mais do que a releitura de um poema, assim como o poema é uma releitura de algum aspecto da poesia) abre um atalho, uma rota alternativa para o destino original. no caso, desse haikai eis a tradução (encontrei o original e a tradução aqui):

Os anos se passam –
Uma máscara de macaco
Veste o macaco.

(a tradução transporta a chama de uma vela para outra.)

[continua…]

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[próximo tópico: o que é o texto didático?]

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