poema 081

sobre um encontro do poema

sempre ouvi falar do poema.
li, escutei e até respondi acertadamente
perguntas capciosas sobre o poema:
a origem do poema?
o atual paradeiro do poema?
as intenções? as segundas intenções? as reais intenções do poema?
a essas e a muitas outras questões
respondi impunemente e com louvor.
tudo falso testemunho.

nunca entendi o poema.

não importando quão bem eu respondesse sobre as implicações
ideológicas polissignificativas de sua gênese
para-verbal sob o viés do empirismo
transfigurativo contextual da teoria X
(apud LITERÁRIO, Grande Crítico in:
A leitura do poema: uma análise bem aceita em nossa época.
São Paulo: Boa Referência, 2013),
o poema me escapava. sempre.

mas, então, um dia

andava pela rua, pelo meio do trajeto desta vida,
pela estrada pedregosa já asfaltada e não via
nem selva escura, nem pedra na retina ou máquina que se abrisse.
não via nada pois andava pela calçada
e só em mim
com meus pensamentos eu me achava

entre as gentes e os carros e os semáforos
e as lojas e a fumaça e os sons e os ruídos
e o asfalto e as faltas e a pressa
e as presas e os preços e todos nós
presos em nós próprios presos
a cada um de nós que caminha
na ignota travessia sem saber que compartilha
em sua cela solitária a cadeia
de muitos elos que caminham
pela incessante corrente desta vida

eu caminhava
e ao chegar a uma esquina da velha rota
já cansada dos meus passos,
vejo-o, atravessando a rua,
vindo pelo avesso do meu destino:

o poema

desiluminou para si todos os caminhos
pelos quais eu havia passado até então
e todos em que haveria de pisar dali em diante.
sendo ele, naquele momento, toda a luz do encontro.

e pelas frestas dos meus olhos bem abertos
o poema cintilou o suspiro de uma estrela
e se ofereceu sem oferta
e se entregou sem entrega
e se deu sem dádiva
e, como se revelasse
o mistério etéreo do ar,
o poema encontrou
o nada

e ali naquela esquina eu me achava
com minha leitura enfim desdobrada
(em entendimento além do entendível,
em compreensão anterior ao pensamento)
diante desse encontro

o poema ainda hoje me escapa.

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