Às vezes, querer escrever um poema é não escrevê-lo.

Ocorreu-me agora essa ideia e eu não sei ao certo o que isso quer dizer. Faz tempo que deixei de acreditar no gênio puro, no dom. Há muito pouco de inspiração que sustente um poema. E não há talento que não seja fruto de muito trabalho.

A Poesia é ardilosa e exige artimanhas daqueles que se dispõe a segui-la. De mim, ela exige um constante auto-questionamento. Frequentemente, preciso desaprender a escrever e até mesmo a pensar. Ordenar o caos com palavras requer a lógica de ordenar as palavras com caos. E vice-versa. E versa-verso. Eis o verso.

Por mais que aparente, ele não acontece de repente. A ocorrência de um verso – de cada verso na construção de um poema – requer uma relação tensa entre os aspectos ativo e passivo do ser. É preciso procurar ativamente a Poesia em tudo o que há e mesmo nas coisas que não existem ao nosso redor. Ao mesmo tempo, é preciso deixar passivamente que ela aconteça ou que ela nos encontre. Entre uma coisa e outra, eu diria que é ao buscar que somos encontrados. Mas nem sempre ou quase nunca a Poesia me encontra onde eu a procuro. (É um fato que ela não me encontra se eu não a procurar). Por isso, talvez, querer escrever um poema, às vezes, seja não escrevê-lo. Às vezes, isso é um tanto frustrante. Mas, geralmente, a persistência tanto na busca como na espera me mostra que eu preciso abandonar minhas atuais ferramentas e criar novas ou recuperar velhas ou recuperar novas e criar velhas…

Resta ainda observar que muito embora, na minha concepção das coisas, a Poesia não seja escrita (porque ela é anterior ao poema), não acho que o melhor poema seja aquele que não se escreve (outra ideia que, como a do gênio puro, abandonei há tempos), pelo óbvio motivo de que o poema que não se escreve não é poema.

Disso tudo, a conclusão a que o mote deste post me leva é que a divisão ativo/passivo no trabalho de conceber o poema não é igualitária. Ainda que a procura seja essencial, o maior esforço reside na espera da Poesia (porque, mesmo enquanto a busco, não deixo de estar esperando por ela), na gestação do poema. (Poeta é um ser grávido de palavras). Não basta querer escrever o poema, é preciso (saber) esperá-lo.

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