poema 107

um decassílabo qualquer

vai toma no cu, seu filho da puta

Uma resposta to “poema 107”

  1. Jorge Says:

    num dos meus devaneios, meus poemas são usados em livros didáticos. temos aqui, então, um ótimo texto para aqueles que se aventuram a ensinar os encantos da escansão de versos a jovens estudantes do ensino médio.

    o decassílabo é um verso com 10 (deca) sílabas poéticas. em oposição às redondilhas (versos de 5 ou 7 sílabas), consideradas baixas, o decassílabo, tal como o alexandrino (um tipo dodecassílabo, isto é, verso de 12 sílabas), é tido como um verso elevado. por essa razão, o decassílabo é o verso padrão da poesia clássica em língua portuguesa.

    foi em decassílabos que, segundo Camões, os Lusíadas alcançaram a dita (van)glória; que o amador transformou-se na cousa amada; e que sete anos de pastor Jacó serviu. desde então e até mais ou menos o século XIX, todos que se meteram a poetar em grande estilo, no geral, o fizeram, seguindo Camões, em decassílabos.

    vale observar que, a princípio (lá na Grécia Antiga), versos e poemas eram baixos ou elevados não pela sua qualidade e sim pelo seu teor, seu tom e seu conteúdo. baixos eram os assuntos cômicos, cotidianos e, enfim, vulgares, ao passo que as grandes guerras e aventuras (as epopeias) eram temas elevados, dignos de versos mais longos, sérios e pesados. assim, uma sátira, mesmo sendo baixa, podia ser melhor (em termos de qualidade textual) do que um poema épico. contudo, com o passar do tempo, baixo e elevado passaram a designar o que era ruim e o que era bom. e hoje em dia, em geral, é ruim o que é popular (vulgar), ou seja,o que é feito para e pelo povão; e é bom o que é da elite, feito para a classe dominante, dela proveniente ou por ela aprovada. é por isso, por exemplo, que o funkão carioca de hoje é execrável e qualquer coisa do Chico Buarque é louvável. curiosamente, o Chico ficou famoso pelos seus sambas dos anos de 1960/70 e o samba, algumas poucas décadas antes disso, era tão execrável quanto o funk é hoje (vide, por exemplo, a música “Pra que discutir om madame?”, de João Gilberto).

    voltando à questão do decassílabo e da poetagem em grande etilo. essa relação foi extremamente relativizada pelo modernismo e hoje temos grandes poemas nos mais variados números de sílabas. há excelentes poetas que trabalharam com uma ou duas sílabas em cada verso de um poema e há poetas que seriam imensamente melhores do que são se não tivessem usado sílaba alguma em nenhum poema.

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