Archive for janeiro \29\UTC 2014

poema 115

quarta-feira, janeiro 29, 2014

outro agora escreverá estas palavras.

não usará as mãos e os olhos tanto
quanto a voz e os ouvidos.

e mesmo que não as diga nem as escute,
grafará em si tais palavras
no exato espaço que elas ocupam.

outro eu alheio a mim
no espaço e no tempo
destas linhas
cantará em uníssono com outra voz,
que a minha silenciosamente ecoa,
estas palavras em melodia.

outro eu que não eu
enfim imprime estas palavras
no tempo e na vida.

(— obrigado)

poema 114

quinta-feira, janeiro 23, 2014

além

eu andei certo
diziam “é louco!”

eu andei reto
diziam “é torto!”

eu andei esperto
diziam “é tonto!”

eu andei tanto
diziam “é pouco!”

eu andei na ponte
gritavam “abismo!”

eu não caí.

eu andei pra longe
pra chegar perto

desses braços,
corações,
olhos
abertos

confissão de um cara normal

quinta-feira, janeiro 16, 2014

eu podia ficar quieto. de muitas maneiras, o caso não me diz respeito. sou homem, branco e até hétero. por isso, para alguns, aparentemente eu não sou um aberrante, bizarro e aterrador outro que deve ser silenciado, isolado e aniquilado. sou homem, hétero e até branco. por tais características, permitem-me, no geral, o mais fundamental dos direitos que um humano pode ter: posso ser. e, sendo assim, rarissimamente sou questionado por ser o que sou. perante alguns outros homens, brancos e héteros, jamais tive que justificar minha existência, pois aparentemente eu não era um outro que deveria ser consertado, torturado e descartado; eu era apenas mais um como eles. sou branco, hétero e até homem. eu podia ficar quieto.

mas, diante de uma notícia compartilhada por amigos, a consciência me incomoda porque eu sei que o acaso me conferiu 3 características pelas quais eu não tenho mérito algum. porque eu sei que para que eu fosse o que sou foi preciso que um bisavô judeu fugisse com esposa e filhos de uma Alemanha que não tolerava o outro. foi preciso também duas avós e uma mãe solteiras criando seus filhos numa sociedade que dizia veladamente que elas estavam erradas, que elas deveriam ser de (pertencer a) um homem hétero e, preferencialmente, branco. foi preciso isso e muito mais para que eu existisse.

graças a muitos acasos dos quais não sou culpado, o primeiro e mais inconsciente rótulo que me dão é “um cara normal”. graça a isso, posso andar nas ruas da cidade e não me perseguem. e não me param em blitz. e não me batem. e não me pedem os documentos. e não me arrancam os dentes. e não me fecham as portas. e não me marcam o corpo. e não me vendem. e não me matam.

não me matam e me deixam ser o que sou. e eu podia ficar quieto.

poema 113

terça-feira, janeiro 14, 2014

Sartririzando

Inferno, sou os outros!

poema 112

quarta-feira, janeiro 8, 2014

noovodades

Ao ovo dedico a nação chinesa.” 
(Clarice Lispector)

de novo
há um ovo
dentro do ovo

dentro do ovo
há um ovo
de novo

de ovo
há um novo
dentro do ovo

dentro do novo
há um ovo
de ovo

há um ovo
de ovo
dentro do novo

há dentro do ovo
de ovo
um novo

ovo de ovo
há dentro
do novo um

ovo de novo
há dentro do
Ovo