confissão de um cara normal

eu podia ficar quieto. de muitas maneiras, o caso não me diz respeito. sou homem, branco e até hétero. por isso, para alguns, aparentemente eu não sou um aberrante, bizarro e aterrador outro que deve ser silenciado, isolado e aniquilado. sou homem, hétero e até branco. por tais características, permitem-me, no geral, o mais fundamental dos direitos que um humano pode ter: posso ser. e, sendo assim, rarissimamente sou questionado por ser o que sou. perante alguns outros homens, brancos e héteros, jamais tive que justificar minha existência, pois aparentemente eu não era um outro que deveria ser consertado, torturado e descartado; eu era apenas mais um como eles. sou branco, hétero e até homem. eu podia ficar quieto.

mas, diante de uma notícia compartilhada por amigos, a consciência me incomoda porque eu sei que o acaso me conferiu 3 características pelas quais eu não tenho mérito algum. porque eu sei que para que eu fosse o que sou foi preciso que um bisavô judeu fugisse com esposa e filhos de uma Alemanha que não tolerava o outro. foi preciso também duas avós e uma mãe solteiras criando seus filhos numa sociedade que dizia veladamente que elas estavam erradas, que elas deveriam ser de (pertencer a) um homem hétero e, preferencialmente, branco. foi preciso isso e muito mais para que eu existisse.

graças a muitos acasos dos quais não sou culpado, o primeiro e mais inconsciente rótulo que me dão é “um cara normal”. graça a isso, posso andar nas ruas da cidade e não me perseguem. e não me param em blitz. e não me batem. e não me pedem os documentos. e não me arrancam os dentes. e não me fecham as portas. e não me marcam o corpo. e não me vendem. e não me matam.

não me matam e me deixam ser o que sou. e eu podia ficar quieto.

Uma resposta to “confissão de um cara normal”

  1. Jorge Says:

    escrevi este texto ao compartilhar no facebook a notícia de um jovem negro e homossexual que foi brutalmente assassinado no centro de São Paulo. (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/01/1398366-adolescente-gay-e-achado-desfigurado-apos-se-perder-em-festa-em-sp.shtml).
    a notícia em si não é mais nem menos especial do que as inúmeras outras notícias sobre casos semelhantes ou mesmo do que os incontáveis casos semelhantes não noticiados. e acredito que o texto consegue refletir meu posicionamento em relação à intolerância contra o outro que ocorre muitas vezes nas forma de racismo, machismo e homofobia.

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