9 11 16 | 55

Ontem foi dia 9 de novembro de 2016. Não foi o que os americanos chamam de nine eleven. Mas, para nós brasileiros, foi sim um 9/11. Só que ninguém morreu. Pelo menos, ainda não. Pelo menos, não pelo que será narrado aqui. Pelo menos, não até esse ponto do que está escrito. Pelo menos, não que eu saiba.

“Donald Trump venceu as eleições” foi a segunda frase que eu disse nesse 9/11 lendo a notícia com o celular na mão. A primeira frase foi algo como “Bernardo, tá na hora”. Ele quase nunca responde à primeira frase, se concentrando apenas em ouvi-la e acordar. Já para a segunda frase, indo para o banheiro, ele disse “Sério? E agora?”. Dei de ombros sem responder (ou talvez já respondendo) porque ainda precisava acordar o irmão dele e preparar as coisas para levá-los a escola.

Agora, enquanto escrevo, me dou conta de que as coisas não se resolvem levando os filhos para a escola.

Digo isso porque a pergunta dele ficou atravessando meu dia como uma azia de algo mal digerido na cabeça. E agora foi que, após deixá-los na escola, vi no meu celular o lamento de diversos amigos postado nas timelines. Até os memes em sua natureza cínica e sarcástica lamentavam aquele fato. E agora foi que na sala de espera do consultório médico o jornal televiso matutino (cujo nome saudava o Brasil) fazia uma ampla cobertura sobre a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos da América. Não vi notícias sobre o trânsito na Marginal Tietê nem a previsão do tempo. E agora foi que, na sala de espera do laboratório onde fui fazer uns exames, o jornal televiso vespertino (que deveria falar sobre aquele hoje) não poderia fazer outra coisa que não fosse continuar falando de Donald Trump, eleito no dia anterior. Nenhuma daquelas pautas amenas sobre a filha de uma dona de casa ou sobre o que fazer/vestir/beber/comer com o tempo louco do verão que viram notícias agradáveis para quem assiste o jornal no meio da tarde esquecer ou suportar seja lá o que for preciso esquecer e suportar. E agora foi que eu não vi o jornal da noite porque não estava em nenhuma sala de espera àquela hora. Mas, enquanto jogava videogame com meus filhos, sabia que em outras TVs o jornal da noite (que é nacional) falava exclusivamente das cores da bandeira estadunidense e do seu novo presidente. E talvez falasse também um pouco do nosso presidente (embora nem todos que conheço sejam tão condescendentes com esse pronome possessivo em relação ao atual presidente do Brasil) — mas só do que dissesse respeito ao que ele tivesse declarado sobre a eleição de Donald J. Trump ao cargo máximo. E agora foi que ao longo de todo o dia, até depois de eu ter dado boa noite para meus filhos, amigos e conhecidos continuavam a se lamentar nas timelines e a compartilhar lamentos de outros amigos e conhecidos de diversas timelines do mundo.

Também pelo espanto e pelo medo no qual parecíamos comungar, mas principalmente pelas telas de TV com a bandeira americana, pelos depoimentos em inglês sobpostos pela tradução in off do repórter brasileiro, pelas análise detalhadas, pela euforia jornalística que falava muito e não dizia quase nada, esse 9/11 me lembrou muito aquele outro de quando eu ainda era o filho que ia para a escola. Só que ninguém morreu.

Ainda.

Que eu saiba.

“O Senado aprovou a PEC 55” foi uma das últimas frases que eu disse nesse 9/11 lendo a notícia que brotou num vão entre um meme e uma análise sobre a coroação de Donald Trump. Sabrina já estava me esperando na cama. Ela disse “O quê?” porque não escutou direito e eu falei “Aquela PEC que era 241 na Câmara e virou 55 no Senado”. Até semana passada, as timelines falavam muito dela. As timelines tinham que falar dela. Estudantes brasileiros poucos anos ou meses mais velhos que Bernardo tinham ocupado mais de mil escolas públicas em manifestação contrária a essa PEC. Talvez os jornais televisivos diriam que os estudantes invadiram as escolas, se os jornais dissessem alguma coisas sobre esses estudantes e suas escolas (e o outro pronome possessivo não seria nenhuma condescendência nesse caso). Mas, antes de 9/11, os jornais falavam do trânsito na Marginal Tietê, da filha de uma dona de casa e de uma ou outra coisa que o atual presidente do Brasil fez.

A última coisa que eu fiz antes de deitar foi a seguinte anotação na agenda do celular:

“10/11 Ideia de conto
Dia da eleição de Trump me lembrou a morte de Sadam Hussein. O vídeo gravado e posto no Internet. Eu tava na casa do meu avô. A outra família dele. Os lados de lá e os de cá. A PEC 241/55 foi aprovada no dia em que todos falavam da eleição de Trump. Escrever é escolher. Escolher é matar as possibilidades infinitas. O que deixamos de falar quando resolvemos falar algo?”

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