Archive for the ‘jardim’ Category

sobre ter parado de escrever

terça-feira, setembro 15, 2015

não sei porque eu parei de escrever.

essas são as primeiras palavras que eu me proponho de fato a escrever em muitos meses. não que eu tenha passado esse tempo sem querer escrever. eu quis. vim aqui diversas vezes e me assentei diante do branco da tela e nada aconteceu. não houve aquele estalo e as palavras, sem meu fôlego para prossegui-las, logo desmoronavam sobre si. depois de um tempo cansei. apenas aceitei o fato de havia parado de escrever. sendo que esse fato, a gente não aceita nunca.

desde então e até 10 minutos atrás quando comecei a escrever este texto, tendo parado para atender duas ligações, e mesmo agora eu continuo sem entender como ou por que isso aconteceu.

dirão, talvez, que há poemas recentes. um de setembro, dois de julho. não me engano. são textos escritos há muito tempo e guardados na gaveta. não os escrevi nesse período de seca. apenas desentulhei uma ou outra coisa de cima deles e fiquei com o que havia sobrado. verdade seja dita que isso que acabo de escrever resume boa parte do processo de escrita de muitos outros textos meus. no entanto, há muito tempo que não escrevo de nada de verdade. nem mesmo para que haja o que desentulhar depois. eu parei de escrever há alguns meses e não sei o por quê.

não estou vivendo em crise. cheguei aos 30, sinto-me bem com minha vida e minhas escolhas. as finanças estão uma lástima, mas já estiveram bem pior e eu não me sinto perdido. finalmente, minha vida é aquilo que eu quis que ela fosse. o casamento vai bem, os filhos também. o emprego às vezes é chato, mas, no geral, é de bom para ótimo. não estou satisfeito com tudo, é claro. preciso estudar, mudar algumas coisas, melhorar outras… continuar vivo enfim.

meu problema é que não escrevo e não vejo em nada disso que acabei de listar alguma justificativa para não escrever. minha crise é não escrever. então, escrevo.

Homofobiafobia?

segunda-feira, fevereiro 3, 2014

“Homofobia” é um palavra com um efeito bem interessante. Primeiro, ela apaga todas as demais palavras do texto do qual ela venha a se encontrar. Depois, ela dispara um sirene de emergência. Em seguida, ela é prontamente desligada a paus, pedras e (por que não?) lâmpadas fluorescentes pela turba de pessoas que acredita que isso é exagero — diriam até que é frescura de bichinha; mas isso seria homofóbico.

Uma agressão homofóbica, então, é menos agressiva, já que homofobia não existe (para alguns, injustiça social e racismo também não, mas estou digredindo…). Da mesma forma, nas notícias sobre um caso de violência homofóbica, a violência chama menos atenção do que aquela “homofobia” exageradamente impressa no papel, na tela ou na voz jornalística. Diante dessa palavra, pensam os indignados: “Por que isso?! Violência é violência! Esses viado querem se aparecer! Não veem que qualquer um pode apanhar na rua: preto, pobre, viado… qualquer um!”.

Eu até consigo visualizar dois cenários nos quais esse indignado ou defende que não havia esse chilique de homofobia nem tanta violência nos tempos do governo militar ou defende que somos tão democráticos e igualitários que esses dias mesmo, inclusive, comemoramos o primeiro beijo gay numa novela das 8. “Uma vitória da democracia!”

confissão de um cara normal

quinta-feira, janeiro 16, 2014

eu podia ficar quieto. de muitas maneiras, o caso não me diz respeito. sou homem, branco e até hétero. por isso, para alguns, aparentemente eu não sou um aberrante, bizarro e aterrador outro que deve ser silenciado, isolado e aniquilado. sou homem, hétero e até branco. por tais características, permitem-me, no geral, o mais fundamental dos direitos que um humano pode ter: posso ser. e, sendo assim, rarissimamente sou questionado por ser o que sou. perante alguns outros homens, brancos e héteros, jamais tive que justificar minha existência, pois aparentemente eu não era um outro que deveria ser consertado, torturado e descartado; eu era apenas mais um como eles. sou branco, hétero e até homem. eu podia ficar quieto.

mas, diante de uma notícia compartilhada por amigos, a consciência me incomoda porque eu sei que o acaso me conferiu 3 características pelas quais eu não tenho mérito algum. porque eu sei que para que eu fosse o que sou foi preciso que um bisavô judeu fugisse com esposa e filhos de uma Alemanha que não tolerava o outro. foi preciso também duas avós e uma mãe solteiras criando seus filhos numa sociedade que dizia veladamente que elas estavam erradas, que elas deveriam ser de (pertencer a) um homem hétero e, preferencialmente, branco. foi preciso isso e muito mais para que eu existisse.

graças a muitos acasos dos quais não sou culpado, o primeiro e mais inconsciente rótulo que me dão é “um cara normal”. graça a isso, posso andar nas ruas da cidade e não me perseguem. e não me param em blitz. e não me batem. e não me pedem os documentos. e não me arrancam os dentes. e não me fecham as portas. e não me marcam o corpo. e não me vendem. e não me matam.

não me matam e me deixam ser o que sou. e eu podia ficar quieto.

101

segunda-feira, janeiro 3, 2011

Fui jogar o lixo ontem. Do meu apartamento até a lixeira do condomínio é uma pequena caminhada pelos gramados, pelas quadras onde as crianças brincam, pelos outros prédios de apartamento, pelos estacionamentos de cada bloco. Pode parecer muito, mas é uma caminhada banal de não mais do que 15 minutos. Ontem, porém, foi também uma caminhada pelo silêncio e pela chuva.

Na cozinha em que deixei o guarda-chuva, ela aguardava a minha volta enquanto meus passos ecoavam em cada pingo d’água e cada pingo d’água me sorria como quando eu era menino e corria, junto a meu irmão, por outras mesmas chuvas.

Na gota de um instante, o caminho por entre os prédios foi o mesmo caminho por sobre o asfalto das velhas ruas e o silêncio abriu-se em palco para os sons de nós meninos conversando com a chuva. Gritávamos e ríamos e celebrávamos — em cada passo e em cada poça.

Na chuva, eu me lembrei dessas coisas enquanto ela descia para abrir a porta do prédio. Eu me lembrei também que eu não escrevia havia um tempo. Eu estava feliz e sorri para ela.

E fiz uma prece líquida.

uma madrugada qualquer

sábado, dezembro 26, 2009

Acordei sem querer no meio do jardim noturno em que as estrelas florescem e, como a chama azul de milhares de pequenas velas, iluminam os sonhos dos homens.
Vim aqui só pra escrever que a noite é um jardim, as estrelas são flores e eu estou acordado sem você motivo pra sonhar.

Almoço

terça-feira, julho 21, 2009

Eu saí de casa e deixei as janelas abertas sem me importar com o céu. A manhã estava leve e o dia prometia ser vazio. Só, dentro de mim tocava um trompete solidário que ela nunca iria escutar. Deixei guardada no armário da cozinha uma taça de cristal tão trincada de usar, mas tão bonita.
Sim, eu fui ao supermercado. Fui comprar cebola para preparar o almoço. Eu comprei outras coisas também, mas só as cebolas importam agora. Porque, cortadas ao meio, elas lembram rosas de água (eu comprei um vinho chileno), e as pétalas líquidas e brancas tem o desenho dos trincos no cristal.
Comprei o pão que se reparte entre as mãos amigas. E foi pensando nos antigos companheiros que eu quis preparar este almoço. Mas todos foram deportados (quando não mortos) deste país estrangeiro que carrega a minha bandeira.
Não faz mal! Oh, não, não faz mal. O tempo que fluí em minhas veias e arou a minha pele disfarçou, sobre o pó, as minhas cicatrizes. As pétalas da minha taça agora são cheias e rubras. Ele me teceu lições sobre o fim das coisas (é onde elas também começam, não é?). Mostrou como a perda também traz o ganho. Ensinou o perdão e o esquecimento. As pétalas são tão doces quanto seus espinhos, afiados. É ainda violentamente rubro. Mas a dor ele não me ensinou a desfazê-la. Talvez seja a lição final.
A falta dos velhos companheiros para este almoço não me incomodou. Convidei outros que hoje compartilham melhor o segredo do silêncio comigo.
Eu chamei o vento, a luz e o som deste trompete que ela me deu quando saiu pela última vez. (Foi desde então que ele tocou). Chamei o tempo, também, é claro. E me esqueci de você, veja só!
Você me perdoe, por favor, esta cabeça prateada. Mas foi graças a ela também que você chegou. Eu deixei as janelas abertas quando saí sem me importar com o céu. E quando eu voltei e vi você, mais leve que a manhã que acabava, entrando com sua beleza em pingos e gotas. Como pude esquecê-la, minha amiga?!
Mas é claro que eu me sento aqui, sob a janela aberta, sem nenhum incômodo! E almoço e bebo com meu companheiros. Aprecio muito cada um, mas é só você que rega o meu sorriso.
Sabe, depois do último gole, quando o trompete cessar, é com este sorriso em meu rosto que eu gostaria de aprender a última lição sobre o fim das coisas. Talvez seja lá onde você começa…

Ruínas

sábado, junho 6, 2009

O grande tesouro deste lugar é seu enigma. A possibilidade de que tenha sido real.
(Tabajara Ruas – fragmento de Encontro)

Agora já faz cinco anos que tudo está em paz e não há um dia em que eu não encontre nos entulhos alguma lembrança dele. Eu me lembro dele, numa tarde em que caminhávamos pela av. Paulista, dizendo que sua maior alegria em relação a esse mundo era a certeza de que um dia ele irira acabar. Isso já faz muito tempo. Nessas horas, me lembro, seu olhar ficava distante e um sorriso sereno despontava no canto de sua boca. Deixe-me contar um dos meus sonhos mais íntimos, ele disse.

Como um menino, ele contava que andava pela cidade, num futuro pós-tudo. Num mundo em que a natureza, soterrada durante séculos pela maravilha da modernidade e do incessante fluxo de avanços tecnológicos, reocupou em poucos anos o espaço em que as vidas de muitos homens não viram terminadas as obras de suas mãos e cérebros afoitos por mais. No sonho ele via a floresta que escalou os imponentes edificíos do passado, fazendo com que placas, paredes, antenas, telhados aparecessem como ossos de uma carcaça. Mas não se assuste assim! – ele riu – Nem pense que eu tenho gosto pela destruição. Me alegra pensar na paz desse mundo…

Ele era tão bonito ao meu lado. Talvez fosse o olhar ou o sorriso, qualquer coisa pueril nele, que me atraía. Mas pode ser que tenha sido isso mesmo que mais me irritava nele.

Agora me lembro da vez em que ele ficou parado diante de uma velha casa abandonada. Eu já conhecia outros de seus sonhos íntimos. Você gosta tanto de coisas velhas – eu disse – por que então não viajamos para Europa? Visitamos a Grécia, alguns museus na Itália… adoraria comprar algumas roupas em Milão… Podemos ver o Coliseu! Mas ele riu.

Ele sempre ria, aquele riso doce e lindo. Ele ria de mim? Eu odiava aquele riso. E ele disse como se explicasse pacientemente para uma criança que não entende nada da vida. Esta casa velha e abandonada é agora a mesma casa destruída da minha infância, onde o mato cresce pelas feridas do assoalho. As duas casas são a mesma e são também o Partenon ou os templos sem nomes, perdidos pelo tempo em florestas asiáticas. E ele foi dizendo outras coisas que não interessavam à juventude das minhas vontades insaciáveis. Uma casa velha é universal… O que é que aquele garoto sabia do mundo? Preferia uma casa velha ao glamour da Europa! E aquele riso… A beleza das ruínas está naquilo que de mais humano elas refletem, ele disse.

Isso foi quando as TVs ainda funcionavam. Eu acabei indo para a Europa um tempo depois. Sem ele. Eu queria viver na única velocidade que faria a vida valer a pena: a máxima. Eu fui a todas as capitais do luxo, vesti todas as altas grifes, andei nos melhores carros e vivi todas as loucuras que os jornais podiam noticiar. Apaixonei-me perdidamente em cada país, em cada mês e cada paixão era maior e mais intensa que a anterior e todas elas (eu acreditava) valiam bem mais que aquele olhar de menino e aquele riso que me afrontava. O mundo era minha festa e agora era eu quem ria! (Mas, às vezes, sozinha nos banheiros dos quartos de hotéis, eu chorava enquanto tirava a maquiagem).

Mas tudo isso foi há muito tempo. Foi antes da Crise, dos bombardeios, antes de todos irem para a Guerra e das cidades serem destruídas, quando ainda se podia caminhar pela av. Paulista. Hoje tudo são escombros.

um certo nariz azul…

quarta-feira, abril 29, 2009

Vestiu um dia de Sol. Calçou um par de nuvens. Com um sorriso plantado na lapela e uma gravata de luz saiu às ruas envergonhadas com seu genial nariz azul. Com uma cambalhota entrou no picadeiro. Equilibrou-se em meio-fios e rachaduras na calçada, nas catracas fez piruetas e dançou valsa. Da escada rolante tirou um lenço e do lenço uma multidão cinza. Estalou seu chicote e sacou amestradamente um leão que andava na ponta dos pés com sapatilhas de balé, um tigre que tomava chá e um elefante que plantava bananeiras. Tirou a cartola, que era um vasinho de flor, e olhou as horas no seu aquário de pulso. Do centro do picadeiro pintou a platéia a sua volta. Do marcador de ponto fez um trapézio e saltou por cima do todos, caiu de bunda no chão e chorou sorrisos. Levantou-se e saudou a todos com voz radiante de corneta apocalíptica:

RESPEITÁVEL PÚBLICO

O SHOW DEVE CONTINUAR

E curvou-se esperando os aplausos. Ninguém aplaudiu.

O caminho

terça-feira, janeiro 20, 2009

O caminho vai ficando árido sem que a gente perceba, sabe? É difícil explicar. Ainda mais porque é desnecessário e você sabe disso. Mas foi assim comigo e talvez não será diferente com você… se é que já não foi…ou se é que não é.
Então. Eu tava dizendo, o caminho. Quando eu olhei era um deserto. A estrada seca seguia numa monótona linha reta pelo que parecia milhares de quilômetros a minha frente. E olhar pra trás não era nem um pouco melhor, porque era igualzinho, só que dava pra ver umas pegadas, que indicavam de onde eu tinha vindo. Dava até pra me consolar pensando que eu tava seguindo uma direção.
Bom, foi isso que eu pensei logo de cara. Mas… hunf… alguns segundos parados olhando pra frente e pra trás, tentando entender aquele caminho. Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás… e.
E onde e que tavam as pegadas? O caminho tinha engolido as pegadas, sacou?
Mas tudo bem. Eu ainda sabia o que era frente e o que era trás. Sabia? Porque aí eu comecei a pensar. Eu tava no meio de uma linha. A linha vinha de um lugar e ia pra outro. Mas eu não sabia que lugar era um e outro, porque, até onde eu via, dava pra perceber que, de um lado, a linha seguia até bem depois de onde o horizonte derretia na visão e do outro também! E se eu já tivesse alguma vez parado e, sem perceber que o caminho engoliu minhas pegadas, tivesse começado a andar de volta?
Humm… ok andar de volta ainda seria uma direção, mas.
Mas e se eu, andando de volta, tivesse por acaso parado e, sem perceber que o caminho engoliu minhas pegadas, tivesse começado a andar de volta da volta? Pior! E se isso tivesse se repetido? Ainda mais de uma vez! Ai ai ai…
Aí você já viu, né. Eu olhei ao redor e não melhorou nada. O chão, por toda a extensão, era reto, plano, chato pra não ter variação nenhuma. O solo, de um lado, vermelho e poeirento de secar até a garganta da alma de quem visse, e do outro, ha!, não preciso nem dizer… diferente não era, seguia assim até os fundos de qualquer horizonte. O chão só mudava mesmo, um pouco, na linha reta do caminho, mais amarronzada. Acho que era porque o caminho era mais pisado, né. Ainda que ele engolisse as pegadas.
E eu tava lá… no meio daquela linha. Sem nenhuma pedrinha pra chutar.

A janela aberta

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Ela vinha de longe, sem fazer barulho. Os longos cabelos negros salpicados de estrelas e a Lua num cordão ao redor do pescoço. Seu hálito era uma brisa serena e sua voz era fresca:
– Eu sou a Noite.
Sentada na beira da cama, a boca bem perto do meu ouvido. Ela me sussurrava sonhos.