Archive for the ‘retratos’ Category

uma pequena confissão

quarta-feira, novembro 27, 2013

atualmente trabalho no quinto andar de um prédio. trata-se de um amplo salão que imagino ter uns 150 m². estou bem no meio deste salão rodeado por aproximadamente 80 pessoas. as baias são baixas, todos se vêem. o ambiente é agradável, as pessoas são simpáticas. faço pesquisa de textos para livros didáticos. leio crônicas, notícias, contos, letras de música, resenhas de filmes, poemas, tirinhas. mas, de vez em quando, leio um poema ou assisto pelo youtube à alguém declamando um poema. nesses de vez em quando, se me olharem de perto, verão que choro.

e chorar por conta de um poema é uma das ínfimas coisas que acho que tenho de melhor em mim.

III – O banquinho

quarta-feira, outubro 28, 2009

Como começa a história? A vida começa quando a gente nasce. Se ela for uma história, então é como se a gente entrasse no cinema com o filme começado. Uma vida é uma história? A vida a gente vive. Mas a história, a gente conta, ouve, lê, escreve, inventa… Seja como for, esta não é a história de uma vida. Nossas vidas? Não. Não sei. Nem sei que história é esta. Ela fica diferente quando você a lê. Por isso, eu acho que uma história pode ter muitos começos diferentes. A história começa como aquelas outras que você conhecia bem e, como eu, terá talvez esquecido.

A história começa com um banco de madeira branco.

Ele ficava no fundo da sua antiga casa, perto do tanque em que sua mãe lavava a roupa e do quartinho em que seu pai guardava as ferramentas. Era pequeno, feito com três ou quatro tábuas firmes como para caber um adulto quase de cócoras. Os dois meninos o colocavam próximo ao muro do quintal e sentavam-se lado a lado. Os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos segurando os queixos – e os olhos longe. Buscavam uma história para uma tarde. Era assim que começava: um fisgava a ideia, outro puxava.

A gente era dois ninjas que tinham que vingar a morte do nosso velho mestre. A gente era dois soldados que estavam perdidos numa selva perto do quartel-general do inimigo. A gente era dois guerreiros selvagens num mundo antigo e mágico. Dois ciborgues num futuro devastado. Dois lutadores de rua. Dois espiões. Dois cavaleiros. Dois irmãos…

Do banquinho, os dois valentes heróis se levantavam prontos para enfrentar hordas infindáveis de inimigos, cruzar reinos esquecidos, encontrar misteriosas criaturas, atravessar mares e cavernas, salvar pessoas e até mesmo voar na vastidão do quintal da sua antiga casa, onde havia uma mangueira próxima ao muro sem reboco que delimitava o espaço entre a sua casa e a do vizinho.

Eu não me lembro quando começamos a usar aquele banco como suporte para nossas aventuras. Lembro-me que, em certo momento, já tínhamos consciência de que ele era necessário para a magia. “Vamos brincar do quê?”, “Não sei, vamos pegar o banquinho e a gente vê…”. Víamos… Também não me lembro quando foi que deixamos de usá-lo. O que eu sei é que por causa dele, sempre que vejo O pensador, de Rodin, penso em dois antigos meninos sentados num banco; e que hoje, quando estou diante de uma folha ou de uma tela em branco, ainda tenho aquela sensação de ter os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos segurando os queixos e os olhos longe.

II – Pedido de desculpa

domingo, agosto 30, 2009

A escrita é um fracasso na medida em que ela não traduz coisa alguma da verdade ou da alma. As palavras operam em um mundo próprio, que eu prefiro imaginar como um bosque fantástico e inventivo que nada tem a ver com o real. Por isso, o leitor erra querendo decifrar nas entrelinhas uma suposta verdade do escritor. Seja lá qual for a verdade, ela está sempre do lado de fora do texto. Do lado de dentro, há apenas uma história.
Espero, J., que você me perdoe pela minha trapaça. Porque o que há aqui não é aquele ano nem aquela casa. Estou pagando minha promessa com um embuste, como Prometeu o fez aos antigos deuses.
Esta história pouco tem de história – ela é mais um pequeno álbum de pequenos retratos que eu tirei ao longo dos anos. E agora que eu faço dessas imagens palavras, elas vão deixando de ser verdades e esta suposta e fracassada história vai deixando de ser a vida que a gente verdadeiramente viveu.
Acho que tem que ter uma frase boa para terminar aqui, né? Por enquanto, fica esta: o que sobra da infância é a nossa mitologia.

I – “eu nunca vi o meu amigo chorar”

segunda-feira, agosto 10, 2009

J.,

não consigo escrever a história que você me pediu. Já se passaram meses, continuo pensando naquela noite, tento escrever e nada. Frustrante. O ato de escrever é um grande fracasso.

Nos rascunhos que eu fiz nesse tempo todo, a primeira frase é sempre “Eu nunca tinha visto meu amigo chorar”. Acho que é uma boa frase para começar a história, no entanto, por mais que eu a repita, nada se desenvolve dela. É preciso esperar, eu sei. Mas a situação me incomoda demais e eu já estou de saco cheio dessa história que você me pediu.

O que me incomoda é que nesse anos todos, até aquela noite, eu realmente nunca tinha visto você chorar e eu não consigo escrever sobre isso. Sei que agora você deve se lembrar (ainda que a memória nunca tenha sido o seu forte) de inúmeras vezes em que você chorou na minha presença. Lembro-me bem de você chorar quando brigava com seu irmão fosse por causa de uma partida de video game (minha mãe nos vendo na sala e defendendo sua causa “deixa o pobrezinho jogar!”, você tinha cinco anos) fosse para chamar a atenção da sua mãe e finalizar uma briga que você tinha começado com ele (é verdade que ele provocava). Mas não é de choro de criança que eu estou falando. É de um choro mais fundo, um choro que a gente aprende quando começa a ter consciência de que alguma coisa está mesmo perdida e não será mais encontrada. Esse choro que é uma forma de nudez.

Aconteceu na minha última ida à casa da minha mãe, depois daquele churrasco. A falta de pudor é a virtude dos bêbados. Eu achei que você estava estranho por causa da discussão com sua namorada. As luzes apagadas e você sem querer papo deitado no seu colchão. Antes de dormir, eu, no meu papel de amigo, perguntei se estava tudo bem, se você queria conversar…

E eu me lembro que nesse momento meus olhos ficaram mais abertos para a escuridão do quarto porque a sua voz chegou entre lágrimas discretas. “Eu tava lembrando daquela outra casa, na Rio Claro”, você disse. “Tava lembrando daquele ano. Cara, aquela foi a melhor época, não foi?”. Mesmo espantado, eu disse sim e sorri meio triste. “Eu tava lembrando…” – maldito bêbado – “Promete que você vai escrever sobre isso? Sobre aquele ano e aquela casa?”. E eu disse sim de novo, surpreso porque você estava chorando.

Meses de rascunhos depois daquela noite, eu estou aqui expondo meu fracasso em escrever a história a que você, em um despudorado e belo momento de embriaguez, prendeu-me com uma promessa. Talvez as entrelinhas aqui não revelem que, apesar de toda a nossa amizade, eu considero você como principal culpado pela minha frustração em relação a essa história.

Um brinde a você, meu amigo!