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quarta-feira, junho 15, 2011

Há alguns anos, J. enviou-me em uma de suas cartas o roteiro de uma história que ele tencionava contar. O assunto em si, se a memória não me falha, parecia bastante simplório e pouco original. Acredito que o próprio J. deveria julgá-lo de tal forma, pois sua caligrafia trêmula não deixava de reverberar certo ânimo (coisa rara em sua pessoa) em relação à maneira que a história seria contada. “Tenho para mim que estou montando um esqueleto bastante singular”, é uma das frases com a qual J. se referia à forma como pretendia encobrir seu tema. Infelizmente, essa é uma das poucas frases que guardo ipsis litteris da carta que devo ter perdido em algum incêndio.

Como J., por motivos que desconheço, ainda não escreveu sua história, atrevo-me a reescrevê-la aqui apenas para fazer passar o tempo e exercitar as mãos cansadas. Peço desculpas aos improváveis leitores por não apresentar aqui o magistral esqueleto que J. tinha em sua mente, mas apenas o simplório roteiro. Ou talvez nem isso, já que reescrevo com base apenas nas lembranças que tenho daquela carta. Como vivo a repetir, o homem é prisioneiro de sua memória, mesmo que ela seja apenas esquecimento.

Borges é o personagem principal desta narrativa. Talvez seja o único. Ele acordou numa cela escura. A luz fraca vem de uma lâmpada na parede sobre a porta e não dá conta de iluminar todo o recinto.

O espaço é justo para ele, algo em torno de três metros quadrados. Contudo, o pé direto é de uma altura desproporcional. Dez, quinze metros? Difícil saber. Há uma pequena janela próxima ao teto. Inalcançável. Ela dificilmente permite determinar se é dia ou noite fora da cela, mas é possível escutar o rumor das ondas.

Elas quebram em uma praia não muito longe ou muito próxima. As paredes sem reboco mostram que a cela foi construída com gigantescas pedras recortadas e encaixadas umas nas outras com esmero inquestionável. Provavelmente, a largura dessas pedras deve causar uma espécie de isolamento acústico. Elas estão gastas pelo tempo e, mais superficialmente, por hachuras assimétricas e fracas. Pequenas manchas lembrando sangue envelhecido levam a crer que as linhas tortuosas foram feitas por unhas humanas. Algumas dessas linhas são encontradas também no chão, pavimentado com o mesmo tipo impenetrável de pedra da parede. Uma tentativa de fuga desesperada feita além das fronteiras da sanidade? Talvez a loucura seja a única razão nisso.

Há, por fim, a porta. Uma peça de metal com quase dois metros de altura e a largura necessária para que apenas um homem magro passe com pouca folga.

poema 057

terça-feira, junho 14, 2011

este reino incompleto
está repleto com as sobras

de inúmeros começos
sem final nenhum

poema 056

terça-feira, junho 14, 2011

frustração

não existe um único poema com raiva
no império do desamor. palavras são placas
sem calor ou sentimento

o grito e o contorço da garganta não
se imprimem no papel.

nem os nervos nem os gestos
nem os murros nem as pedras
são fumaça nestas linhas

surdas, intocáveis, insensíveis.

poema 055

segunda-feira, junho 13, 2011

um copo pra mim
assim
um pouco de ti
aqui
um oco de nós
sem dó

não coube numa dose apenas

poema 054

quinta-feira, junho 9, 2011

deu vontade de parar tudo e escrever alguma coisa
do jeito que eu escrevia antigamente

mas eu perdi alguma coisa e antigamente
eu só
escrevia que havia perdido alguma coisa
sem saber que havia me perdido e
alguma coisa me escrevia

da vontade de escrever, eu parei com tudo
mas alguma coisa continua