Archive for dezembro \26\UTC 2009

poema 026

sábado, dezembro 26, 2009

a torneira está aberta

nunca há poemas suficientes
para engarrafar toda a Poesia

uma madrugada qualquer

sábado, dezembro 26, 2009

Acordei sem querer no meio do jardim noturno em que as estrelas florescem e, como a chama azul de milhares de pequenas velas, iluminam os sonhos dos homens.
Vim aqui só pra escrever que a noite é um jardim, as estrelas são flores e eu estou acordado sem você motivo pra sonhar.

Leitura de “Ler”, de Maurice Blanchot.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

O romance não nos dá as coisas, mas seus signos.
(Sartre, François Mauriac e a liberdade in: Situações, p. 61)

Um livro existe apenas pelo lado de fora.
(Deleuze e Gattari, Introdução: Rizoma in: Mil platôs, p. 12)

… a escrita de hoje se libertou do tema da expressão: ela se basta a si mesma, e, por conseqüência, não está obrigada à forma da interioridade; ela se identifica com sua própria exterioridade desdobrada.
(Foucault, O que é um autor? in: Estética: literatura e pintura, música e cinema, p. 268)

A ‘literatura’, no mau sentido, denuncia-se em quem a ignora ou dissimula e desaparece em quem a exibe.
(Genette, A literatura como tal in: Figuras, p.245)

Há, na continuidade dos textos lidos para o curso, este desabrochar do/no vazio: a imagem desta flecha que os atravessa; o desenho de um movimento para fora. Eu o identifiquei a partir do texto de Blanchot, Ler, porque, na obra literária, não há exterioridade além da leitura. Não foi isso que, pouco a pouco, os textos lidos foram apresentando?

Mas o que é essa exterioridade ou leitura? Antes, o que ela não é: o ato de mirar o olhar sobre a página aberta; a decifração da combinação de letras, espaços em branco e pontuação; a compreensão de uma série de enunciados; a conexão com outros textos; uma busca por resposta. Ainda que isso (e mais) participe do processo, há algo primordial na leitura, na sua essência: o Sim.

É nele que a leitura começa, nessa abertura ao que ainda não é a obra literária, mas que será. Abertura que é entrega e é anulação. Anulação porque é isto que ela revela: silêncio. A leitura está além do livro e nos leva para ausência absoluta cujos sentido e extensão não cabem no desperdício de esforço insuficiente para defini-los. A leitura é um movimento de retorno máximo para o que é anterior ao espaço e está  fora do tempo, para quando o espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Por isso, Blanchot afirma:

O que mais ameaça a leitura: a realidade do leitor…
(Blanchot, p. 198)

Aí está novamente a frustração de Sartre ao ler O fim da noite, de Mauriac:

Eu existia, sentia-me vivendo, bocejava um pouco…
(Sartre, p. 62)

Assim como, na escrita, há a morte do escritor, é preciso que haja, na leitura, a morte do leitor. Mas, ao contrário do indivíduo escritor, que, na sua anulação, recebe o rótulo de autor, o leitor é o anônimo que, se não a classifica, justifica a obra. Na leitura, o leitor se aliena de seu mundo, sua existência dá lugar à leitura. Essa anulação compõe a obra:

O próprio da leitura, a sua singularidade, elucida o sentido singular do verbo ‘fazer’ na expressão: ‘ela faz com que a obra se torne obra’. A palavra ‘fazer’ não indica neste caso uma atividade produtora: a leitura nada faz, nada acrescenta; ela deixa ser o que é.
(Blanchot, p. 194)

A composição da obra literária revela o outro lado do espelho que a leitura e a escrita são uma para outra. A leitura, na sua singularidade, faz a obra, porque, na sua aceitação do texto, ela também é  reescritura dele. O escritor não escreve toda a obra, ela não tem controle sobre o que será lido do seu texto (cada vez menos seu). Por outro lado, a escrita também se faz como releitura de outros textos, discursos, obras e realidades. E o leitor não lê toda a obra, porque, na sua dinâmica (a leitura), ela ultrapassa qualquer limite. (A leitura não é apreensão.)

Por fim, como no início, a leitura é incomunicável. De que outra maneira seria a consciência do vazio que ela comunica? Daí se tem o erro de tentar expressá-la, de nomeá-la, qualificando, interpretando, comentando a obra. Criam-se assim leituras fantasmas que se antepõem à obra como se ela já estivesse finalizada, quando ela não está nem mesmo iniciada.

Leitura de “A literatura como tal”, de Gérard Genette.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Esta é a minha leitura sobre um texto que por sua vez é a leitura de alguém sobre um texto que por sua vez também é a leitura de outro alguém sobre um texto. Todos são um texto e não são o mesmo. Ou são? Vou começar novamente.

Esta é a minha leitura sobre o texto de Genette, A literatura como tal, no qual ele comenta outro texto de Paul Valéry intitulado Tel Quel. Nesse texto, Valéry aborda outro texto, muito maior, nomeado por ele e por nós todos como Literatura. Eu vou escrever a respeito do que Genette escreveu a respeito de Valéry. Eu vou escrever sobre Valéry e vou ignorar a presença de Genette entre nós dois, como se ele fosse o vidro entre meus olhos e o objeto do meu olhar. Ou melhor, como se eu visse a foto de uma janela aberta e comentasse qualquer coisa sobre ela sem considerar que eu não vejo a janela, mas apenas o recorte que o fotógrafo fez da janela.

Valéry foi um excêntrico no campo literário e, talvez por isso mesmo, foi um dos poucos que mais perto chegou do olho do furacão. Ele enxergou na literatura o jogo de combinações arbitrárias que resultam em efeitos artificiais, que criam realidades que não são reais, mas são possíveis graças ao encadeamento certo de convenções. Seu projeto visava uma teoria geral da literatura que, com rigor matemático, revelasse todas as convenções das quais a própria literatura é feita e as quais ela mesma muitas vezes ignora. Mas revelando assim as convenções do jogo literário o que ele terminaria por encontrar? Nada. Deste ponto ele parte para neste mesmo momento chegar. O que de fato ele nos revela é um sistema que se baseia sobre o vazio, tornando todas as possibilidades válidas.

A realidade está entre essas possibilidades. Afinal, não é ela constituída por diversos discursos (a História, a Filosofia, a Política etc.) que se encadeiam (e se constituem a si mesmos) de maneira arbitrária? A realidade em que vivemos e que inventamos não passa de uma outra literatura. E o real permanece inacessível.[1] Por isso, quanto mais realista for a obra literária, mais ela se mostra artificial; quanto mais se quiser como verdade do mundo (expressão de realidade), mais falsa será. “A única verdade, na arte, é a arte”. Assim, não há que se buscar fora da arte qualquer sentido ou significado para ela, seja na sua suposta relação com a realidade, seja na sua suposta relação com a vida do autor. Esta que não passa também de outra realidade inventada, pois o autor vai sendo produzido pela sua obra à medida que o escritor empírico nela vai se apagando.[2]

Nessa história de revelações e encobrimentos, nesse imenso salto no vazio ou nesse caminhar sobre o abismo, Valéry aponta seu herói: Edgar Allan Poe, o primeiro a revelar a máquina por trás dos efeitos e a formular as regras que movem as engrenagens desse sistema e a maneira como elas podem se encaixar. Em suma, foi Poe quem começou aquilo que seria o projeto de Valéry: revelar as convenções literárias e seu sistema de arbitrariedades. Ou, melhor dizendo, encarar o vazio sobre o qual a literatura se sustenta. Isso que, creio, vem sendo também tarefa da crítica.

Mas nada disso sou eu quem digo, é Valéry. Ou não é Valéry e sou eu. Talvez seja Genette entre nós dois. Talvez seja alguém antes de Valéry ou depois de mim. Ou outra combinação disso mesmo.

Esta foi a minha leitura sobre a leitura de uma leitura. E agora já é a sua.


[1] Sim, trata-se (mais uma vez) de Lacan.

[2] Retomo aqui o que já disse sobre a questão autor/escritor na leitura do texto de Foucault, O que é um autor?. Pareceu-me que Valéry (ou seria Genette?) não discorda daquilo que foi dito por mim (ou seria Foucault?).

Leitura de “O que é um autor?”, de Michel Foucault.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

“O autor está morto”, é a afirmação da primeira parte, na qual os dois temas que baseiam o restante do texto são explicitados: a escrita é exterioridade desdobrada; a relação dela com a morte. Não basta, porém, reafirmar que a escrita não é expressão de interioridade alguma e que diante da obra (e nela, sobretudo) o autor morre mil vezes a cada palavra. Foucault deixa bem claro que o espaço vazio da escrita não é novidade há muito tempo. Como localizá-lo e trabalhá-lo, no entanto, são problemas pouco abordados até então.

Foucault começa pela questão do nome do autor. Nesse ponto, ele se esforça para mostra a dissociação entre indivíduo (escritor) e função (autor). No meu ponto de vista, tal relação é simétrica à outra: dissociação entre texto e obra (outro problema citado no texto de Foucault). Um exemplo bastante claro e didático é o caso de Henri Beyle/Stendhal. Neste caso, uma face da moeda é o indivíduo que se propôs a escrever textos, a outra é o autor cujo nome estampa as capas de O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma.[1] É dessa maneira que me parece aceitável concluir que não se trata da morte do autor, mas sim da morte do escritor. O autor seria então uma máscara mortuária vazia e o escritor seria sempre um ghost writter. É claro que as questões levantadas por Foucault continuam válidas: como precisar o recorte entre um e outro? Em que momento o escritor se torna um autor ou um texto passar a compor uma obra? É difícil (se não impossível) encontrar uma resposta satisfatória, uma vez que a criação do autor se dá por vários intermediários, por exemplo: editores, leitores, críticos, outros autores etc. Por isso Foucault afirma: “A função autor é, portanto, característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade.”

Depois de distinguido a função autor, Foucault propõe quatro traços característicos para analisá-la:

1) “A função está ligada ao sistema jurídico e institucional que contém, determina, articula o universo dos discursos”. O discurso se caracteriza, antes de tudo, como um ato. Na nossa cultura, a necessidade de atribuí-lo a um autor começa a ter importância quando se percebe a possibilidade de transgressão na realização desse ato. Foucault destaca o fim do século XVIII e o começo do XIX como momento-chave para esta característica da função autor. É quando os discursos começam a engendrar revoluções e a decapitar pessoas que se faz necessário atribuí-los a autores que possam ser culpados e punidos por esses atos. Entretanto, nesse sistema, vejo que punido de fato é o escritor, o autor tende a se beneficiar tanto da transgressão como (e sobretudo) da punição que o coroa – veja Sade, Flaubert ou Baudelaire, por exemplo.

2) “Ela não se exerce uniformemente e da mesma maneira sobre todos os discursos, em todas as épocas e em todas as formas de civilização”. Na Idade Média, enquanto o anonimato guardava a autoria de muitos textos literários, a atribuição autoral a textos científicos comprovava a veracidade do discurso; por outro lado, a partir do século XVIII, a autoria de um texto literário torna-se índice de status, agregando (ou não) valor ao discurso, enquanto os textos científicos começam a sustentar-se por si mesmos em um conjunto sistemático.

3) e 4) “Ela não é definida pela atribuição espontânea de um discurso ao seu produtor” e “ela não remete a um indivíduo real”. Como já disse, a construção do autor não é determinada única e diretamente pelo indivíduo/escritor. Ela é forjada ao longo de um processo que atravessa e classifica os textos por ele escritos e a relação desses com leitores e outros textos.

Na última parte, Foucault lança um olhar para além dos limites dos livros empíricos ao indicar que a função autor ocupa uma posição “transdiscursiva”. Isto quer dizer que ela se aplica também aos “fundadores de discursividade”, autores que, mais do que os próprios livros ou obras, produziram a possibilidade e a regra de formação de outros textos. Mais que um agrupamento ou uma repetição de textos, a discursividade é um espaço onde os textos mantêm uma relação entre si de tal maneira que, mesmo que um texto negue outro, a relação entre eles reafirma a existência desse espaço. Um dos exemplos dado por Foucault é o da psicanálise como discursividade e Freud como seu fundador.


[1] Como disse, o exemplo é didático. O que ocorre na maioria dos casos é ambivalência de um mesmo nome, como Flaubert, Kafka ou Borges, por exemplo.

Leitura de “Rizoma”, de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

O que é rizoma? Quase metade do texto lido, muitos menos que isso compreendido e a pergunta continua. Uma pesquisa rápida na biologia ajuda: em botânica, o rizoma é uma ramificação própria de algumas plantas; é distinto porque ele pode brotar de qualquer ponto da planta e pode funcionar como raiz, talo ou ramo, independentemente de sua localização na figura da planta. Ficou mais fácil ler a proposta de Deleuze e Guattari, tendo esse ideia em mente. Para os autores, rizoma é a proposta de um novo tipo de texto – o texto da pós-modernidade. Mas para entendê-lo é preciso entender os outros dois tipos de texto aos quais ele se opõem.

O primeiro, clássico, é o livro-raiz. Biunívoco, é o texto definido pela relação, pela reflexão da raiz no tronco e vice-versa. “O livro imita o mundo, como a arte, a natureza.” (p. 13). É a dicotomia sujeito-objeto, que segundo os autores, fundamenta o discurso totalitário, fechado em si. O um se relacionada (se abre) para o outro, desde que um se veja (imite) o outro. Platão, Aristóteles; “A poética”, mimeses? Algo assim.

O segundo tipo é moderno. É o sistema-radícula. Neste sistema, a raiz originária foi abortada, há o espaço vazio e, no entanto, o dualismo (sujeito/objeto) permanece. Ainda que ausente, o texto-raiz é retomado no sistema-radícula, é repetido à exaustão em partes menores. Não é esta a proposta romântica: alcançar o todo por meio dos fragmentos? Está em Schlegel, está em Hugo. “O mundo perdeu seu pivô, o sujeito não pode nem mesmo fazer dicotomia, mas acede a uma mais alta unidade, de ambivalência ou de sobredeterminação, numa dimensão sempre suplementar àquela de seu objeto” (p.14), lembra-me Lacan¹ e a estruturação do sujeito em face do objeto perdido A e das tentativas de recuperá-lo em outros objetos a.

Até aqui, temos o que não é rizoma. Chegamos, então, ao rizoma. Tendo passado pelo clássico e pelo moderno, devo considerar o rizoma pós-moderno? Evito. Gostaria que houvesse outro nome para o espaço ao qual a proposta do rizoma é cabível. Tento explicar: 1) Não vejo no pós-moderno (seja isso o que for) uma ruptura nem uma superação do moderno (sendo isso o que já era apontado desde a metade do século XIX). Seria, no meu ponto de vista, um prolongamento deste. E ainda não encontrei quem mostrasse algo diferente. 2) É preciso atentar-se também ao fato: a relação dos textos com o clássico e o moderno não está presa à cronologia histórica. O livro-raiz, por exemplo, sendo “clássico”, pode muito bem ser encontrado em outras épocas que não a Antiguidade. Vê-se isso na relação que os autores traçam com Mao Tsé-Tung.

É no ponto em que o rizoma começa a ser abordado que eu encontro alguns problemas no texto de Deleuze e Guattari. Os autores admiram a todo instante o múltiplo (ou a multiplicidade) enquanto ao uno reservam todos os defeitos. Eles, no entanto, ignoram (propositalmente?) as limitações do próprio texto que é, para mim, centrado em uma unidade. Ao meu ver, eles escreveram um texto formalmente entre o livro-raiz e o sistema radícula à respeito de um texto que supera esses dois. Veja-se, por exemplo, a enumeração “de certas características aproximativas do rizoma”:

1- princípio de conexão;
2- princípio de heterogeneidade;
3- princípio de multiplicidade;
4- princípio de ruptura a-significante;
5- princípio de cartografia;
6- princípio de decalcomania.

Mesmo considerando que os autores, devessem ser mais conscientes (ou menos arrogantes) em relação aos limites do seu texto, não posso deixar notar como eles acertam nas indicações desse texto do porvir. Não há como não enxergar nessa enumeração aquilo que, desde os anos 1990, conhecemos como hipertexto.
Então, o rizoma é o hipertexto? Em parte sim. Em grande parte ele está no Google e na Wikipédia nossos de cada dia. É o texto dinâmico, em constante movimento, de conexões perpétuas, sem ponto de partida ou chegada, apenas passagem. No entanto, em parte, o hipertexto ainda não é rizoma. Explico: mais que textos empíricos, escritos, encadernados etc, o livro-raiz ou o sistema radícula são textos que se fazem a partir da (ou na) relação sujeito–mundo. Por isso, para que o texto rizoma seja plenamente realizado, acredito que seja necessária a constituição de um sujeito além do pós-moderno (uma nova psicologia). Tal sujeito é o grande n-1 que ainda está por ser escrito.

¹Ao que parece, estou constantemente me lembrando de Lacan.

Leitura de “François Mauriac e a liberdade”, de Jean-Paul Sartre

segunda-feira, dezembro 7, 2009

Duas palavras traçam o fio condutor do ensaio crítico de Sartre à respeito de François Mauriac: impaciência e indeterminação. Elas estão relacionadas tanto com a escrita quanto com a leitura do romance Fim de noite – o caso particular, no entanto, serve para o crítico francês como mote metonímico para uma visão que se estende para a literatura como um todo.
A indeterminação, para Sartre, está relacionada à liberdade – a do homem real ou fictício. É a partir dela que se cria o vínculo entre o leitor e o personagem:

O que Rogójin vai fazer, nem ele nem eu sabemos (…) ele é livre. (p. 62)

Dessa forma, Sartre abre sua crítica para uma outra esfera constituinte do romance (e da literatura) não muito explorada até então : o espaço do leitor. É nesse aspecto que ela é mais severa. Segundo o crítico-leitor, a escrita de Mauriac não permite a aproximação entre ele (Sartre) e a obra:

Terminada a leitura, porém, confesso minha decepção: em nenhum momento me deixei levar, em nenhum momento esqueci meu tempo. (p. 62)

É o distanciamento, portanto, a frustração deste leitor e o ponto de partida de sua crítica.
Esse distanciamento é causado pelo esvaziamento das impaciências do leitor, outro ponto em que Sartre concentra sua argumentação.

Mas Mauriac não se preocupa em provocar minha impaciência (…) mal sentia nascer minha curiosidade e ela é saciada além de toda medida. (p. 72)

A indeterminação, o não saber, cria o espaço vago para a curiosidade do leitor; esta gera a impaciência que é o impulso que move o leitor (motiva a leitura) para dentro (adiante) da obra. Preenchendo completamente esse espaço vago, o escritor interdita o espaço do leitor, obstrui o fluxo da leitura.
Mauriac, para Sartre, erra dessa maneira em duas linhas principais: (1) na construção da personagem Thérèse, seu caráter é determinante de seu destino e esse já é explícito ao leitor desde o começo; (2) há uma voz narrativa onisciente que não se implica na história e, pior, julga a personagem – aniquilando assim o desenvolvimento do leitor.
De maneira geral, Sartre se aproveita de Mauriac como uma baliza para “o que não fazer” – Dostoiévski seria seu contra-ponto.
Lendo o texto de Sartre, lembrei-me de Lacan (retomando Nietzsche): nomear é matar o objeto. Pelo que entendi, esse é o problema da obra de Mauriac: tudo em seu romance é nomeado, inclusive a liberdade da personagem. Volto ao início do ensaio e lá reencontro a frase:

O romance não nos dá as coisas, mas seus signos.

Fico com as perguntas: e a crítica? Ela nos daria (se é que ela dá) o signo do signo?

postal

quinta-feira, dezembro 3, 2009

5 minutos pra acabar. só me caibo em palavras avulsas e nas cartas que sinto falta de te escrever. sonhando e acordado, eu me desenhei num anjo e minhas asas eram aquelas folhas amassadas e rabiscadas que eu colocava nos envelopes com teu nome e endereço. é porque eu penso demais em mim. até me canso. e eu nem sei mais o nome da tua nova rua. eu comprei um novo livro velho e assisti a filme nenhum que lembrasse da tua companhia. tá difícil de escrever nesses tempos de escassez de tempo. mas eu sinto essa falta da tua companhia, sabe? eu também vou ficando estrangeiro de mim às vezes. e o silêncio sincero é fina arte de entendimento entre poucos.
acabou meu tempo.
não o sentimento…

abraço de quem te quer bem.