Archive for abril \25\UTC 2013

poema 089

quinta-feira, abril 25, 2013

Poema dos necessários

É preciso ler, Drummond.
É preciso verde-querer Cartola,
é preciso libertinar Bandeira,
é preciso pichar Mallarmé por toda a cidade.

É preciso humildar Criolo,
é preciso sertanesser Rosa,
é preciso … Clarisse,
é preciso haicair Lemisnki,
é preciso revelar Sophia.

É preciso navegar Pessoa,
é preciso versar Neruda,
é preciso refletir Borges,
é preciso colher de Baudelaire
as benditas flores do asfalto.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso desembalar o belo
e contemplar a alvorada.

poema 088

terça-feira, abril 23, 2013

notificação ao senhor grafiteiro

viaduto é só por cima.
ele existe para passar
por cima da rua.

por baixo, viaduto não é.
por baixo é só sarjeta, é só lixo, é gente só
(é teto, é banheiro, é casa).
por baixo, viaduto não passa.

não pode haver pichação embaixo do viaduto
porque isso agora é arte e, se houver arte por baixo,
viaduto deixa de ser só por cima
passa a ser por baixo também.

e por baixo viaduto não passa,
porque por baixo viaduto não é.
viaduto é só por cima,
por que ele existe para passar
por cima da rua.

logo,
se houver arte embaixo
do viaduto, ele é por baixo também e o que é
por baixo fica por cima e o que não é
arte fica em exposição e o que fica não passa
por baixo nem por cima

então,
viaduto não é
a rua não passa
não é casa, não é banheiro, não é teto
gente só não é lixo, não é sarjeta e não passa
por cima da rua fica
viaduto

assim, retifico:
não pode haver pichação embaixo do viaduto
porque isso agora é arte e viaduto é só por cima.

contando com sua compreensão e colaboração,
cordialmente,
homem viaduto

poema 087

sexta-feira, abril 12, 2013

entre um verso e outro,
o poema acorda, abre o
olho
pálpebra: palavra escrita
pupila: iluminada poesia

poema 086

quinta-feira, abril 11, 2013

parte de mim é só nome
mas, eu sou mais
a que some no escuro sem fim
sonho da alma e, nesse templo,
contempla a luz
que o tempo não consome

poema 085

quinta-feira, abril 4, 2013

Alegoria do mito: a verdade

O mito tateia a Verdade no escuro,
faz da sua nudez um véu translúcido
e, no seu rosto sem face, os olhos vazados de uma máscara.

Foi a mãe das mães quem vestiu o véu e usou a máscara pela primeira vez
e será o filho dos filhos que do mesmo modo o fará pela última.

Entre ela e ele, o mito interpreta um personagem
— uma verdade — que grita
no buraco oco de um tronco,
no precipício íntimo do abismo
o nome da Verdade: primordial silêncio de existir.

E nós, em nossa nudez, sob o véu e atrás da máscara,
passamos a vida buscando a Verdade que vestimos
e morremos exauridos de gritar o nome que não escutamos.