Archive for maio \31\UTC 2009

do silêncio

domingo, maio 31, 2009

Creio que seja logo na primeira carta ao jovem poeta que Rilke instrui: “Não escreva poemas de amor”. O velho poeta aconselha assim, alegando que temas clássicos e abundantes na tradição como o amor podem ser um problema para os iniciantes, pois requerem certa maturidade poética.

Verdade seja dita que eu não sou um poeta maduro – mal consigo me admitir como poeta. Posso dizer sem orgulho que sou um leitor iniciado, já que leio desde o final da primeira infância. (Poderia, talvez, me dizer um escritor se a preguiça não me fosse velha inimiga). Dessa maneira, creio ser quase uma ousadia pueril tomar as palavras do poeta para embasar as minhas. Mas eis o que eu digo: não escreva sobre o amor.

É um equívoco comum de quase todos os humanos, amantes experientes ou não, fazerem a perigosa mistura: palavras e amor. É daí que saem desde as declarações mais corriqueiras aos poemas mais elaborados, passando por embaraços divertidos – “todas as cartas de amor são ridículas”, dizia o Álvaro.

Não repreendo quem faça essa perigosa mistura, uma vez que eu também a faça. (Não é saudável se contentar com todas as regras). Acontece que as palavras têm em si qualquer coisa de incomunicável, de oblíquo. Elas são representação de algo, e nessa condição, elas não são o algo. Por isso, quando penso em não escrever sobre o amor, ou mesmo não falar sobre ele é porque há uma verdade com a qual me deparei ao longo do caminho: para amar, o silêncio é essencial.

poema 010

sábado, maio 30, 2009

As favelas,

anônimas ainda na ciência
– ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus –
talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas,
têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades,
notáveis aprestos de condensação, absorção e
defesa.

Por um lado, a sua epiderme ao resfriar-se, à noite,
muito abaixo da temperatura do ar, provoca,
a despeito da secura deste,
breves precipitações de orvalho;

por outro, a mão, que a toca,
toca uma chapa incandescente
de ardência inaturável.

poema 009

sábado, maio 30, 2009

belo, áspero, intratável.

Tipos clássicos da flora desértica,
mais resistentes que os demais, quando decaem a seu lado,
fulminadas, as árvores todas,

persistem inalteráveis ou mais vívidos talvez.

Afeiçoram-se aos regímens bárbaros;
repelem os climas benignos em que estiolam e definham.

Ao passo que o ambiente em fogo dos desertos
parece estimular melhor a circulação
da seiva entre os seus cladódios túmidos.

Para uma menina com um buldogue

sábado, maio 30, 2009

Os buldogues são criaturas feíssimas e você sabe que eu sei disso. Mesmo assim você os ama e não se aguenta de paixão quando encontra um. Você logo pula, grita, sofre de vontade de apertar-lhe as bochechas. O último sintoma dessa sua ânsia furiosa por buldogues é aquele sorriso lindo – o mesmo sorriso de quando eu olho pra você ou de quando você se xinga por estar apaixonada por mim. “Que absurdo!” você diz num lamento tão gostoso e aí quem sorri sou eu, absurdamente apaixonado.

Mas… me perdoe por conjugar os verbos no presente, mesmo sabendo que eles deveriam estar no pretérito. Acontece, linda, que tá foda.

Hoje eu não recebi nenhuma mensagem sua, como eu sabia que não iria receber. Hoje meu celular não vibrou com o seu “bom dia, lindo” e eu sei que ele não vai vibrar amanhã nem depois. Por isso, foi só um pouquinho mais difícil sorrir durante o dia. (Acho que você não percebeu que eu menti quando disse “um pouquinho”). Eu fiquei lembrando e pensando um monte de coisas…

Um monte de palavras pra escrever e preencher a distância. É por isso que trocamos tantas mensagens, quando o que nós realmente queremos é estar em silêncio um com o outro.

Ah! eu conjuguei errado de novo porque eu lembrei de uma mensagem que você me mandou logo na primeira semana: “Penso em vc o tempo todo!”. Eu também fiz isso hoje.

Eu só fiz isso hoje. E foi tudo por causa do maldito buldogue que eu encontrei enquanto saía do prédio hoje cedo. Por dois segundos nos encaramos. Olhei aquele bicho feio, emburrado, ranzinza, pequeno, truncado, disforme e lindo porque você sorri pra ele. Por isso eu passei o dia todo pensando em você e lembrando de uma passagem de O Pequeno Príncipe:

(…)Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
(…)
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
– Ah! Eu vou chorar.
– A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
– Quis, disse a raposa.
– Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
– Vou, disse a raposa.
– Então, não sais lucrando nada!
– Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Eu não sei se você percebeu, eu estou triste; há muita coisa que eu gostaria falar, quando o que eu realmente gostaria é de ficar naquele silêncio com você. Basta saber que eu não quero que você se sinta culpada, porque, nesse tempo com você, eu apenas fui feliz e porque, no seu lugar, eu faria  a mesma escolha.

No final, não é assim tão ruim como parece. Eu lucrei com a feiúra dos buldogues, não é mesmo?!

poema 008

quinta-feira, maio 14, 2009

Eu sou o Mar.

Areia,
em conchas eu lhe trago o meu sussurro para que você ouça;
em garrafas eu lhe trago mensagens para que você leia;
e nos meus olhos, trago distantes ilhas naufragadas
para que você saiba que eu sou
o Mar.

Eu sou o Mar.
Sou eu quem destrói os falsos castelos que fazem de você,
porque a quero como você realmente é, Areia.

Eu sou o Mar e cada onda minha é um beijo em sua pele,
é um chamado para trazê-la ao meu íntimo, onde, submergida em mim,
você repousa, Areia.

Eu sou o Mar.
Eu sou azul. Eu espelho o céu, sou largo, vasto e profundo.
E seu corpo é meu leito, Areia.

Em noites de fúria e tempestade, eu me atiro contra o seu corpo brando, me jogo com violência na serenidade dos seus braços. Em você me espalho, me finco, me agarro e deslizo. E volto mais uma vez, Areia. Porque as espumas dos meus cabelos se enroscam em cada grão dos seus dedos e, no seu corpo permeável, o meu se afunda. E o nosso abraço tem a extensão do horizonte.

poema 007

sexta-feira, maio 1, 2009

poema sem nome

Como é que se faz um amigo?
Eu nunca fiz um amigo.

Algumas pessoas chegaram
sem que eu soubesse de onde vinham
nem para onde iam. E quando me dei conta
lá estava outro amigo!

Como é que se perde um amigo?
Eu nunca perdi um amigo.

Algumas pessoas passaram
e, sem que eu me importasse para onde,
se foram. E não voltaram.
Não valiam a pena.

Os amigos estão perto mesmo quando ficam longe.
E quando ficam perto, não estiveram jamais em outro lugar.

Eu nunca faço, nunca perco um amigo.
Eu o encontro.