Archive for the ‘pensamentos e ensaios’ Category

9 11 16 | 55

quinta-feira, novembro 10, 2016

Ontem foi dia 9 de novembro de 2016. Não foi o que os americanos chamam de nine eleven. Mas, para nós brasileiros, foi sim um 9/11. Só que ninguém morreu. Pelo menos, ainda não. Pelo menos, não pelo que será narrado aqui. Pelo menos, não até esse ponto do que está escrito. Pelo menos, não que eu saiba.

“Donald Trump venceu as eleições” foi a segunda frase que eu disse nesse 9/11 lendo a notícia com o celular na mão. A primeira frase foi algo como “Bernardo, tá na hora”. Ele quase nunca responde à primeira frase, se concentrando apenas em ouvi-la e acordar. Já para a segunda frase, indo para o banheiro, ele disse “Sério? E agora?”. Dei de ombros sem responder (ou talvez já respondendo) porque ainda precisava acordar o irmão dele e preparar as coisas para levá-los a escola.

Agora, enquanto escrevo, me dou conta de que as coisas não se resolvem levando os filhos para a escola.

Digo isso porque a pergunta dele ficou atravessando meu dia como uma azia de algo mal digerido na cabeça. E agora foi que, após deixá-los na escola, vi no meu celular o lamento de diversos amigos postado nas timelines. Até os memes em sua natureza cínica e sarcástica lamentavam aquele fato. E agora foi que na sala de espera do consultório médico o jornal televiso matutino (cujo nome saudava o Brasil) fazia uma ampla cobertura sobre a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos da América. Não vi notícias sobre o trânsito na Marginal Tietê nem a previsão do tempo. E agora foi que, na sala de espera do laboratório onde fui fazer uns exames, o jornal televiso vespertino (que deveria falar sobre aquele hoje) não poderia fazer outra coisa que não fosse continuar falando de Donald Trump, eleito no dia anterior. Nenhuma daquelas pautas amenas sobre a filha de uma dona de casa ou sobre o que fazer/vestir/beber/comer com o tempo louco do verão que viram notícias agradáveis para quem assiste o jornal no meio da tarde esquecer ou suportar seja lá o que for preciso esquecer e suportar. E agora foi que eu não vi o jornal da noite porque não estava em nenhuma sala de espera àquela hora. Mas, enquanto jogava videogame com meus filhos, sabia que em outras TVs o jornal da noite (que é nacional) falava exclusivamente das cores da bandeira estadunidense e do seu novo presidente. E talvez falasse também um pouco do nosso presidente (embora nem todos que conheço sejam tão condescendentes com esse pronome possessivo em relação ao atual presidente do Brasil) — mas só do que dissesse respeito ao que ele tivesse declarado sobre a eleição de Donald J. Trump ao cargo máximo. E agora foi que ao longo de todo o dia, até depois de eu ter dado boa noite para meus filhos, amigos e conhecidos continuavam a se lamentar nas timelines e a compartilhar lamentos de outros amigos e conhecidos de diversas timelines do mundo.

Também pelo espanto e pelo medo no qual parecíamos comungar, mas principalmente pelas telas de TV com a bandeira americana, pelos depoimentos em inglês sobpostos pela tradução in off do repórter brasileiro, pelas análise detalhadas, pela euforia jornalística que falava muito e não dizia quase nada, esse 9/11 me lembrou muito aquele outro de quando eu ainda era o filho que ia para a escola. Só que ninguém morreu.

Ainda.

Que eu saiba.

“O Senado aprovou a PEC 55” foi uma das últimas frases que eu disse nesse 9/11 lendo a notícia que brotou num vão entre um meme e uma análise sobre a coroação de Donald Trump. Sabrina já estava me esperando na cama. Ela disse “O quê?” porque não escutou direito e eu falei “Aquela PEC que era 241 na Câmara e virou 55 no Senado”. Até semana passada, as timelines falavam muito dela. As timelines tinham que falar dela. Estudantes brasileiros poucos anos ou meses mais velhos que Bernardo tinham ocupado mais de mil escolas públicas em manifestação contrária a essa PEC. Talvez os jornais televisivos diriam que os estudantes invadiram as escolas, se os jornais dissessem alguma coisas sobre esses estudantes e suas escolas (e o outro pronome possessivo não seria nenhuma condescendência nesse caso). Mas, antes de 9/11, os jornais falavam do trânsito na Marginal Tietê, da filha de uma dona de casa e de uma ou outra coisa que o atual presidente do Brasil fez.

A última coisa que eu fiz antes de deitar foi a seguinte anotação na agenda do celular:

“10/11 Ideia de conto
Dia da eleição de Trump me lembrou a morte de Sadam Hussein. O vídeo gravado e posto no Internet. Eu tava na casa do meu avô. A outra família dele. Os lados de lá e os de cá. A PEC 241/55 foi aprovada no dia em que todos falavam da eleição de Trump. Escrever é escolher. Escolher é matar as possibilidades infinitas. O que deixamos de falar quando resolvemos falar algo?”

sobre ter parado de escrever

terça-feira, setembro 15, 2015

não sei porque eu parei de escrever.

essas são as primeiras palavras que eu me proponho de fato a escrever em muitos meses. não que eu tenha passado esse tempo sem querer escrever. eu quis. vim aqui diversas vezes e me assentei diante do branco da tela e nada aconteceu. não houve aquele estalo e as palavras, sem meu fôlego para prossegui-las, logo desmoronavam sobre si. depois de um tempo cansei. apenas aceitei o fato de havia parado de escrever. sendo que esse fato, a gente não aceita nunca.

desde então e até 10 minutos atrás quando comecei a escrever este texto, tendo parado para atender duas ligações, e mesmo agora eu continuo sem entender como ou por que isso aconteceu.

dirão, talvez, que há poemas recentes. um de setembro, dois de julho. não me engano. são textos escritos há muito tempo e guardados na gaveta. não os escrevi nesse período de seca. apenas desentulhei uma ou outra coisa de cima deles e fiquei com o que havia sobrado. verdade seja dita que isso que acabo de escrever resume boa parte do processo de escrita de muitos outros textos meus. no entanto, há muito tempo que não escrevo de nada de verdade. nem mesmo para que haja o que desentulhar depois. eu parei de escrever há alguns meses e não sei o por quê.

não estou vivendo em crise. cheguei aos 30, sinto-me bem com minha vida e minhas escolhas. as finanças estão uma lástima, mas já estiveram bem pior e eu não me sinto perdido. finalmente, minha vida é aquilo que eu quis que ela fosse. o casamento vai bem, os filhos também. o emprego às vezes é chato, mas, no geral, é de bom para ótimo. não estou satisfeito com tudo, é claro. preciso estudar, mudar algumas coisas, melhorar outras… continuar vivo enfim.

meu problema é que não escrevo e não vejo em nada disso que acabei de listar alguma justificativa para não escrever. minha crise é não escrever. então, escrevo.

Homofobiafobia?

segunda-feira, fevereiro 3, 2014

“Homofobia” é um palavra com um efeito bem interessante. Primeiro, ela apaga todas as demais palavras do texto do qual ela venha a se encontrar. Depois, ela dispara um sirene de emergência. Em seguida, ela é prontamente desligada a paus, pedras e (por que não?) lâmpadas fluorescentes pela turba de pessoas que acredita que isso é exagero — diriam até que é frescura de bichinha; mas isso seria homofóbico.

Uma agressão homofóbica, então, é menos agressiva, já que homofobia não existe (para alguns, injustiça social e racismo também não, mas estou digredindo…). Da mesma forma, nas notícias sobre um caso de violência homofóbica, a violência chama menos atenção do que aquela “homofobia” exageradamente impressa no papel, na tela ou na voz jornalística. Diante dessa palavra, pensam os indignados: “Por que isso?! Violência é violência! Esses viado querem se aparecer! Não veem que qualquer um pode apanhar na rua: preto, pobre, viado… qualquer um!”.

Eu até consigo visualizar dois cenários nos quais esse indignado ou defende que não havia esse chilique de homofobia nem tanta violência nos tempos do governo militar ou defende que somos tão democráticos e igualitários que esses dias mesmo, inclusive, comemoramos o primeiro beijo gay numa novela das 8. “Uma vitória da democracia!”

confissão de um cara normal

quinta-feira, janeiro 16, 2014

eu podia ficar quieto. de muitas maneiras, o caso não me diz respeito. sou homem, branco e até hétero. por isso, para alguns, aparentemente eu não sou um aberrante, bizarro e aterrador outro que deve ser silenciado, isolado e aniquilado. sou homem, hétero e até branco. por tais características, permitem-me, no geral, o mais fundamental dos direitos que um humano pode ter: posso ser. e, sendo assim, rarissimamente sou questionado por ser o que sou. perante alguns outros homens, brancos e héteros, jamais tive que justificar minha existência, pois aparentemente eu não era um outro que deveria ser consertado, torturado e descartado; eu era apenas mais um como eles. sou branco, hétero e até homem. eu podia ficar quieto.

mas, diante de uma notícia compartilhada por amigos, a consciência me incomoda porque eu sei que o acaso me conferiu 3 características pelas quais eu não tenho mérito algum. porque eu sei que para que eu fosse o que sou foi preciso que um bisavô judeu fugisse com esposa e filhos de uma Alemanha que não tolerava o outro. foi preciso também duas avós e uma mãe solteiras criando seus filhos numa sociedade que dizia veladamente que elas estavam erradas, que elas deveriam ser de (pertencer a) um homem hétero e, preferencialmente, branco. foi preciso isso e muito mais para que eu existisse.

graças a muitos acasos dos quais não sou culpado, o primeiro e mais inconsciente rótulo que me dão é “um cara normal”. graça a isso, posso andar nas ruas da cidade e não me perseguem. e não me param em blitz. e não me batem. e não me pedem os documentos. e não me arrancam os dentes. e não me fecham as portas. e não me marcam o corpo. e não me vendem. e não me matam.

não me matam e me deixam ser o que sou. e eu podia ficar quieto.

quarta-feira, setembro 11, 2013

Às vezes, querer escrever um poema é não escrevê-lo.

Ocorreu-me agora essa ideia e eu não sei ao certo o que isso quer dizer. Faz tempo que deixei de acreditar no gênio puro, no dom. Há muito pouco de inspiração que sustente um poema. E não há talento que não seja fruto de muito trabalho.

A Poesia é ardilosa e exige artimanhas daqueles que se dispõe a segui-la. De mim, ela exige um constante auto-questionamento. Frequentemente, preciso desaprender a escrever e até mesmo a pensar. Ordenar o caos com palavras requer a lógica de ordenar as palavras com caos. E vice-versa. E versa-verso. Eis o verso.

Por mais que aparente, ele não acontece de repente. A ocorrência de um verso – de cada verso na construção de um poema – requer uma relação tensa entre os aspectos ativo e passivo do ser. É preciso procurar ativamente a Poesia em tudo o que há e mesmo nas coisas que não existem ao nosso redor. Ao mesmo tempo, é preciso deixar passivamente que ela aconteça ou que ela nos encontre. Entre uma coisa e outra, eu diria que é ao buscar que somos encontrados. Mas nem sempre ou quase nunca a Poesia me encontra onde eu a procuro. (É um fato que ela não me encontra se eu não a procurar). Por isso, talvez, querer escrever um poema, às vezes, seja não escrevê-lo. Às vezes, isso é um tanto frustrante. Mas, geralmente, a persistência tanto na busca como na espera me mostra que eu preciso abandonar minhas atuais ferramentas e criar novas ou recuperar velhas ou recuperar novas e criar velhas…

Resta ainda observar que muito embora, na minha concepção das coisas, a Poesia não seja escrita (porque ela é anterior ao poema), não acho que o melhor poema seja aquele que não se escreve (outra ideia que, como a do gênio puro, abandonei há tempos), pelo óbvio motivo de que o poema que não se escreve não é poema.

Disso tudo, a conclusão a que o mote deste post me leva é que a divisão ativo/passivo no trabalho de conceber o poema não é igualitária. Ainda que a procura seja essencial, o maior esforço reside na espera da Poesia (porque, mesmo enquanto a busco, não deixo de estar esperando por ela), na gestação do poema. (Poeta é um ser grávido de palavras). Não basta querer escrever o poema, é preciso (saber) esperá-lo.

A galeria dos sonhos esquecidos

segunda-feira, setembro 9, 2013

Comecei a escrever uma crônica aqui há alguns meses sobre uma galeria de antiquários que encontrei no centro da cidade. Apaguei esse texto para ficar apenas com o título. Gosto desse título e gostaria de dar a ele um texto mais digno. Mas não posso. Não consigo.
Vou publicar este texto no lugar da ex-crônica porque preciso publicar alguma coisa. Preciso publicar pelo menos este título. Porque pode ser que um dia eu me lembre de como se faz isso direito — escrever. Uma vez eu confabulei (não sei se essa é a palavra) o ar em palavras e, dos sentidos delas, fiz outros sentidos — diversos, adversos, inversos; mas eram meus sentidos.
Hoje, não estou mais fazendo sentido. Estou querendo – já desesperadamente — fazer qualquer sentido. Mas é como se tudo estivesse repleto de uma absoluta concretude. Todo sentido é uma imensa pedra que não se pode remover ou lapidar.
As palavras estão duras como se fossem cadáveres de ideias engessadas.
Faz-me falta um pouco de vazio.

algumas coisas que eu vou pensando durante um trabalho

sábado, março 2, 2013

a pior maneira de se ensinar poesia é por meio de um texto didático.
a segunda pior maneira de se ensinar poesia é ter a pretensão de que se pode ensiná-la.

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ela me disse que não sabe ler poesia.
achei muito normal. espanto-me, aliás, é com os que dizem saber lê-la.
diria a ela que está tudo bem, que a poesia não tem como pré-requisito o saber ler.

ousaria até a sussurrar que para a poesia, acho eu, basta estar vivo.

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a poesia, por meio do poema, se realiza na leitura. a escrita é morta tão logo esteja no papel, na tela, no muro, no corpo, onde quer que esteja. a vida está na leitura. por isso, eu me pergunto: o que é a biografia do poeta para a poesia? nunca li em lugar algum que drummond escrevesse com lápis faber-castell preto n. 2. por que deveria ler que sophia de mello (ah, sophia!) se casou? teve filhos? morreu? o que conheço de sophia já estava morrendo enquanto ela escrevia. e se alguma vez foi viva, foi enquanto eu li.

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o simbolismo e os poetas que se reúnem sob esse rótulo são vítimas destacadas de um dos piores, mais frequentes e mais hediondos ataques que o texto didático inflige à poesia. para minha infelicidade, ocorre que até hoje ainda não vi um texto didático que abordasse o simbolismo sem começar dizendo que “os simbolistas buscavam a elaboração de uma poesia hermética, inacessível ao público”. há pequenas e sensíveis alterações entre os textos didáticos nessa questão, mas todos eles (os que eu li) apontam, já na introdução, para a mesma e inexorável direção: o simbolismo proíbe o acesso do público à poesia.

“o simbolismo proíbe o acesso do público à poesia”

eis aí uma ideia generalizada que, em suas diferentes manifestações textuais, equivale a um estupro seguido de assassinato, ocultação de cadáver e roubo de doce de criança.

posso soar ingenuamente extremista aqui, mas creio que a única poesia hermética e inacessível é aquela que não pode ser lida. um haikai de matsuo bashô em sua escrita original, por exemplo, é hermético inacessível para mim que não leio japonês e que não encontro no conjunto de desenhos dos ideogramas qualquer sentido, sensação ou emoção de poesia (porque há casos em que um conjunto de traços e desenhos pode ser tão ou mais poético do que um poema).

haicai_historia403

e é para essas situações de inacessibilidade que a tradução (nada mais do que a releitura de um poema, assim como o poema é uma releitura de algum aspecto da poesia) abre um atalho, uma rota alternativa para o destino original. no caso, desse haikai eis a tradução (encontrei o original e a tradução aqui):

Os anos se passam –
Uma máscara de macaco
Veste o macaco.

(a tradução transporta a chama de uma vela para outra.)

[continua…]

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[próximo tópico: o que é o texto didático?]

Flaubert – crise e escrita literárias

quarta-feira, julho 7, 2010

É a partir da segunda metade do século  XIX que podemos identificar mais claramente os traços daquilo que veio a ser chamado de crise literária. Embora o foco deste comentário seja a escrita de Flaubert e não a crise literária, acredito que seja necessário contextualizar a ocorrência desta escrita. Para isso, busco as palavras do professor em sua aula sobre a escrita literária e o romance moderno:

 Assim, haveria para Barthes uma única escritura entre o século XVII e a metade do século XIX.  A partir daqui, de acordo com o Barthes, é que começa a surgir a multiplicação das escrituras:  ‘Doravante, cada uma delas, a trabalhada, a populista, a neutra, a falada, quer ser o ato inicial pelo qual o escritor assume ou renega sua condição burguesa.  Cada uma é uma tentativa de resposta a esta problemática órfica da Forma moderna:  escritores sem Literatura.  Desde há cem anos, Flaubert, Mallarmé, Rimbaud, os Goncourt, os Surrealistas, Queneau, Sartre, Blanchot, ou Camus, traçaram — ou traçam ainda — certas de vias de integração, de explosão ou de naturalização da linguagem literária (…)’. (BEBIANO, 2010)

A expressão de Barthes escritores sem Literatura é interessante por indicar uma ausência que, para mim, é paralela a ausência que Freud e (mais profundamente) Lacan vão indicar como estrutural para a constituição do sujeito moderno. Essa ausência, que talvez seja o eixo da crise literária, começa a ser conhecida quando a literatura muda a direção de seu foco:

 De acordo com Leyla PerroneMoisés, essas mudanças ‘marcarm o fim da literatura (como discurso representativo) e o advento escritura (como exploração da linguagem)(2005, p. XIII).  A partir da metade do século XIX, o discurso literário teria se tornado uma exploração crítica da linguagem, uma vez que esta começa a ser vista como uma barreira, um obstáculo, uma negatividade entre os homens. (BEBIANO, 2010)

Assim, a literatura deixa de olhar exclusivamente para o mundo que ela visa a representar e passa a se ver durante essa representação. Não é à toa que a figuração do poeta deixa de ser a do indivíduo iluminado (tão cara aos primeiros românticos) para se tornar a do indivíduo obscurecido (pensemos em Baudelaire, por exemplo). Não é à toa também que o ato de escrever começa a ser explicitado nos próprios textos — as cartas de Flaubert são um bom exemplo — não mais como fruto da inspiração ou da genialidade, mas como produto de um trabalho.

E onde (ou como) se encaixa Flaubert nisso? Ele é um caso específico dessa mudança de foco da literatura:

A revolução copernicana no domínio da metafísica teria aqui seu correspondente na literatura.  A partir de agora interessa, não o conhecimento do objeto, mas o próprio sujeito.  Em outros termos, e equacionando a questão, a crítica de Kant pôs em causa a metafísica;  o narrador de Flaubert, a narração do romance.  (BEBIANO, 2010)

 O sujeito é o “eu” constituído pelo discurso. Quando ele se volta para si mesmo, ele se conhece na sua própria ação — esta é a narração. Assim ele fica em face da sua Verdade. Contudo, paradoxalmente, ela é um artifício, uma ficção. Conhecendo-se como tal, o sujeito entra em crise — começa o seu desaparecimento —, que é também uma crise narrativa.

No meio de tantas crises, o que Flaubert busca na sua “exploração da linguagem” é o vazio. Assim afirma Tristan Jr. no prefácio de Três contos (2004):

Por outro lado, a biografia rasa da protagonista do conto responde a outra ambição longamente acalentada por Flaubert: escrever sobre quase nada…

É esse vazio que vamos encontrar ao longo de sua obra, na constituição dos personagens, na utilização de metáforas fracas, na suspensão de sentidos das palavras:

Se voltarmos os olhos para o discurso da Educação, vamos ver que a voz narrativa inventada por Flaubert esmera-­se por suspender o uso corrente da língua.  É como se, tendo consciência de que as falas mais comuns participassem da estabilidade social, o narrador passasse a questionar qualquer fala natural ou espontânea. Ele adota como palavra de ordem o distanciamento, criando assim uma relação complicada entre as palavras e as coisas, problematizando assim o próprio processo de significação das palavras. (BEBIANO, 2010)

 Mais do que “problematizar o processo de significação das palavras” a escrita de Flaubert leva o leitor a encarar a impossibilidade da própria narração. É o que vemos, logo no começo de Madame Bovary (FLAUBERT, 1971), na descrição do boné de Charles Bovary:

O boné era uma dessas coisas complicadas, que reúnem elementos do chapéu de feltro, chapéu redondo, fez turco, gorro de peles, barrete de algodão, enfim, um desses pobres objetos cuja muda fealdade possui a mesma profundeza de expressão que o rosto de um idiota. Ovóide, guarnecido de barbas de baleia, começava por três peças circulares; depois, separados por uma franja vermelha, alternavam-se losangos de veludo e de pele de coelho,  e em seguida uma espécie de saco terminado num polígono cartonado e coberto por um bordado complicadíssimo, do qual pendiam, na ponta de um cordão comprido e muito fino, umas pequenas borlas de fio de ouro. Era novo; a pala reluzia. (FLAUBERT, M. Bovary)

A descrição do boné de Charles é uma tentativa fracassada de representação da realidade. Ela se vale de quase todos os elementos possíveis dos diversos tipos de bonés existentes na época, mesmo assim (e por isso mesmo) ela não consegue criar a imagem do boné. No entanto, ainda que falha ou contrária ao seu propósito, a descrição está inserida no romance, no lugar em que, convencionalmente, deveria estar uma descrição. Dessa maneira, fica ao leitor mais atento (não são todos que reconhecem a falha) a dúvida “O que é isso que se lê aqui?”, ou melhor, “O que é isso que não se lê aqui?”

No plano geral de sua obra, outra pergunta que a escrita de Flaubert deixa ao leitor é “Para que usar tantas palavras para exprimir tão pouco?”. Vejamos o caso de Um coração simples, sobre o qual o autor comenta em carta de 19 de junho de 1876:

A História de um coração simples é, muito sinceramente, o relato da vida obscura de uma moça do campo, devota, mas mística, abnegada, mas sem exaltação, e boa como pão fresco. Ela ama sucessivamente um homem, os filhos da patroa, um sobrinho, um velho de quem cuida e, depois, o papagaio; quando o papagaio morre, ela manda empalhá-lo e, morrendo por sua vez, confunde o papagaio com o Espírito Santo. (FLAUBERT, carta para senhora de Genettes apud Três contos, 2004)

Eis aí em menos de dez linhas todo o desenvolvimento de um conto com mais de 50 páginas. A mesma coisa acontece com Madame Bovary e as demais narrativas do escritor. Deixando latente a pergunta já colocada, “Para que tantas palavras por tão pouco?”

Acredito que uma resposta possível seja: porque a inflação das palavras seja a melhor maneira de revelar a anulação, o vazio sobre o qual os discursos se sustentam.

Proust – escrita do desaparecimento

quarta-feira, julho 7, 2010

Questões sobre a obra

 Enfin cette idée du Temps avait un dernier prix pour moi, elle était un aiguillon (…) qui m’avait fait considérer la vie comme digne d’être vécue. Combien me le semblait-elle davantage, maintenant qu’elle me semblait pouvoir être éclaircie, elle qu’on vit dans les ténèbres, ramenée au vrai de ce qu’elle était, elle qu’on fausse sans cesse, en somme réalisée dans un livre.[1] 

 Ao longo de toda a obra de Proust vemos como a questão de ser ou não ser um escritor é fundamental para o protagonista/narrador. É claro que podemos pensar na escrita de Proust, com seu longos parágrafos e suas inúmeras digressões, como a tentativa de cristalização de um tempo irrecuperável, do qual a própria direção da leitura (sempre para frente, buscando o desenrolar da história) tende a se afastar. Contudo, é sob esse plano que a escrita de Proust revelá-se também como um questionamento de si mesma. Ou seja, uma análise mais aprofundada da escrita proustiana poderia se concentrar na maneira como ela mesma se revela no processo de composição(ou fabricação) de uma obra literária que mesmo o Tempo ou as várias leituras e releituras feitas sobre ela não a desgastam, mas antes reafirmam sua força e amplitude.

A extensão e o tempo propostos para este texto não me permitem tal análise, por isso o que eu pretendo fazer é apontar uma síntese, considerando duas etapas simétricas de desaparecimento no processo de composição : o autor e o leitor. 

 O autor

 Que celui qui pourrait écrire un tel livre serait heureux, pensais-je, que labeur devant lui ![2]

 Em sua conferência O que é um autor ?, Michael Foucault, baseado na ideia de morte do autor, trabalha para mostrar a dissociação entre o indivíduo real que escreve – portanto, o escritor – e o autor, paralelamente à dissociação entre o texto escrito e a obra literária.

 Chegar-se-ia finalmente à idéia de que o nome do autor não passa, como o nome próprio, do interior de um discurso ao indivíduo real e exterior que o produziu…[3]

 A partir da ideia de Foucault, podemos entender que o escritor é a pessoa empírica que escreve um texto e autor é uma função que classifica esse texto, sendo também uma parte composta pela obra.

Seria impossível determinar o exato momento em que uma coisa (escritor/texto) se trasnfigura em outra (autor/obra), já que há inúmeros intermediários entre ambos, tais como : editores, leitores, críticas, outros autores etc. No entanto, podemos determinar o momento em que essa transformação tem início : é quando o escritor começa a escolher. As escolhas que cada escritor faz no processo de sua escrita marcam, pouco a pouco, seu próprio desaparecimento no discurso do texto. Assim, a escrita é um processo de morte do escritor :

 Na escrita, não se trata da manifestação ou da exaltação do gesto de escrever; não se trata da amarração de um sujeito em uma linguagem; trata-se da abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não para de desaparecer.[4]

 Sans doute, quand on est amoureux d’une oeuvre, on voudrait faire quelque chose  de tou pareil, mais tout il faut sacrifier son amour du moment, ne pas penser a son goût, mais à une vérité qui ne vous demande pas vos préférences et vous défend d’y songer.[5]

 Então, Marcel Proust, o escritor, se mata mil vezes a cada página escita e, a cada vez, ele abre espaço para a criação de uma obra literária e de um outro Marcel Proust – o autor. Essa morte é a primeira etapa da composição de Em busca do Tempo perdido – a obra, no entanto, ainda não está completa.

 O leitor

 Car ils ne seraient pas, selon moi, mes lecteurs, mais les propres lecteurs d’eux-mêmes.[6]

 A segunda etapa para a composição da obra é um outro tipo de morte. Simétrica a do autor, a morte do leitor é o outro lado do espelho. Digo isso, pensando em uma frase de Maurice Blanchot no seu ensaio Comunicação :

 O que mais ameaça a leitura: a realidade do leitor…[7]

 Segundo Blanchot, a leitura literária não é como a leitura ordinária de qualquer texto, mas como uma entrega absoluta à realidade do texto. Para realizar tal entrega, é necessário que o leitor deixe sua vida, entrando em um estado de alienação do mundo; ou, para empregar uma das imagens de Proust, é necessário que o leitor corte o fio das horas e da ordem do mundo que ele sustenta em círculo ao seu redor para entrar no círculo da leitura.

Em suam, é necessário que o leitor morra enquanto lê a obra para que ela seja completa com essa última anulação:

 O próprio da leitura, a sua singularidade, elucida o sentido singular do verbo ‘fazer’ na expressão: ‘ela faz com que a obra se torne obra’. A palavra ‘fazer’ não indica neste caso uma atividade produtora: a leitura nada faz, nada acrescenta; ela deixa ser o que é.[8]

 A obra

A composição da obra literária mostra o outro lado do espelho que a escrita e a leitura são uma para a outra. A leitura cria a obra porque, em sua anulação, ou seja, em sua aceitação do texto, ela é também a reescritura dele. O escritor não sabe como o texto vai se inscrever no leitor:

 … mon livre n’étant qu’une sorte de ces verres grossissants comme ceux que tendait à un acheteur l’opticien de Combray…[9]

 A escrita, por sua vez, se faz também como releitura de outros textos, discursos, obras e realidades, de tal maneira que ao leitor não será possível ler (assim como ao escritor não é possível escrever) toda  a obra literária, pois ela vai além dos limites de uma compreensão absoluta. Dessa maneira, uma vez estabelecida como tal, a obra literária se torna um espaço ao qual o leitor voltará sem cessar, porque, lendo outras obras, ele estará sempre relendo e reescrevendo as demais obras que ele já conhece, tal como Proust o faz enquanto escreve.


[1] PROUST, Marcel. Le temps retrouvé. Paris: Gallimard, 2009, p. 337

[2] Idem.

[3] FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: Ditos e escritos. 2 ed. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p. 274.

[4] Idem, p. 268.

[5] PROUST, Marcel. Le temps retrouvé. P.349.

[6] Idem, p. 338.

[7] BLANCHOT, Maurice. A comunicação. In: O espaço literário. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 198.

[8] Idem, p. 194.

[9] PROUST, Marcel. Le temps retrouvé. P.338.

Beckett – escrita da repetição

quarta-feira, julho 7, 2010

“Um ataque às palavras em nome da beleza”, assim, de uma maneira quase lírica, em uma carta,[1] Beckett resume e justifica sua “literatura da despalavra”, marcada, em muitos aspectos, pela forma dura e crua de expressar — uma expressão anti-lírica, anti-tudo:

A expressão de que não há nada a expressar, nada com que expressar, nada a partir do que expressar, nenhuma possibilidade de expressar, nenhum desejo de expressar, aliado à obrigação de expressar.[2]

A partir disso, começo a pensar a respeito do que estudamos sobre a escrita literária ao longo do nosso curso. Vimos neste semestre de que maneira, desde a metade do século XIX, a escrita literária se constitui como um trabalho de depuração da linguagem ordinária e cotidiana. Feito pelos artistas em busca um sentido novo que conceda a essa linguagem uma vez mais o aspecto de beleza, esse trabalho é quase alquímico — a transmutação do clichê no belo. Ou um trabalho de mineração, como afirma Beckett:

Cavar nela [linguagem] um buraco atrás do outro, até que aquilo que está à espreita por trás — seja isto alguma coisa ou nada — comece a atravessar; não consigo imaginar um objetivo mais elevado para um escritor hoje.[3]

Nesse sentido de “cavar um buraco atrás do outro” é que a escrita de Beckett se destaca do que era feito até então. Se por um lado, de um modo geral, os autores fizeram de suas escritas uma negação do clichê — seja por meio da sublimação das metáforas, da ridicularização das paródias ou da fuga non-sense do absurdo —, Beckett faz radical afirmação do clichê.

Ele recorta o clichê de todo e qualquer contexto significativo,[4] cercando-o de vazio. Assim, isolados de outros elementos aos quais nós costumeiramente os encadeamos nas nossas comunicações, os clichês são expostos e repetidos à exaustão, até que seu significado seja anulado.

A repetição é, portanto, o grande instrumento da escrita de Beckett. Presente em toda sua obra, podemos encontrá-la neste trecho de O inominável:

(…) eu, eu estou aqui. Logo, sou obrigado a acrescentar ainda o seguinte. Eis-me aqui, eu que estou aqui, que não possa falar, não posso pensar, e que devo falar, logo, pensar talvez um pouco, não posso fazê-lo somente em relação a mim que estou aqui, a aqui onde estou, mas posso um pouco, suficientemente, não sei como (…)[5]

De certa maneira, o emprego da repetição como forma de expressar o nada é reafirmada por Hansen no prefácio dessa obra:

(…) por isso, compõe a redução dos significados como um passo rumo ao silêncio e ao fim da loucura que é ter  de falar e só poder fazê-lo com palavras que não contam e nas quais não se acredita e com as quais inventaram o seu eu e o entupiram de sentido para impedi-lo de dizer quem é e de fazer o que tem de fazer até o ponto de o leitor ter de imaginar que é surdo débil de espírito que não ouve nada do que é dito nem antes nem depois e não compreende nada a mais senão o mínimo do mínimo para dizer o que diz esvaziando o seu eu das representações que não são dele (…)[6]

Andrade, no prefácio de Fim de partida é ainda mais direto:

A repetição sublinha o que há de comum, mas incomunicável, nas experiências das quatro personagens: o vazio, a solidão, a vontade irrealizável de acabar (…)[7]

Cabe ressaltar também que esse procedimento não se restringe apenas às palavras; as ações dos personagens em peças como Fim de partida e Esperando Godot propõem uma simetria, como vemos a partir de alguns textos críticos:

La question de la action est comme renvoyée du côté des personnages et de leur difficulté à agir (…) ils ‘font’ beaucoup tout au long de la pièce, ils accumulent des micro-actions successives qui ne sont habituellement pas montrées au théâtre  parce qu’elles ne sont pas considerées intéressantes ou qu’elles renvoient aux activités communes des gens ordinaires.[8] 

O girar em falso do relógio, negação da novidade e da mudança, sugere um processo de entropia, uma decadência irreversível e irremediável, que as personagens, corroídas pelo tédio e por um humor ácido derivado da consciência aguda, tentam enganar, apegando-se a rituais e hábitos cuja finalidade é matar o tempo.[9]

Tendo apresentado a repetição como elemento fundamental da escrita literária de Beckett, acredito que seria interessante pensar na relevância dessa busca pelo nada proposta pelo autor. Contudo, para não me estender muito neste comentário, deixo apenas uma breve hipótese.

Não há como questionar a importância da Segunda Guerra na experiência de vida Beckett nem o reflexo dela em sua obra. Beckett foi marcado pela vivência em uma Europa soterrada por escombros. Não apenas os escombros físicos, refletidos em seus personagens e cenários, como também os escombros discursivos, derivados tanto das ideologias quanto da produção em massa da modernidade. Considerando isso, acredito que essa busca pelo nada, pelo silêncio final, pode ser uma forma de se desfazer desses escombros e, a partir daí, propiciar espaço para a beleza.


[1] Carta a Axel Kaun, a “Carta alemã” de 1937 in: ANDRADE, Fábio de Souza. Samuel Beckett: o silêncio possível. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

[2] Diálogo com Georges Duthuit sobre a pintura de Tal Coat in: ANDRADE, Fábio de Souza. Samuel Beckett: o silêncio possível. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

[3] Carta a Axel, opus cit.

[4] A partir dessa idéia de “recorte de todo e qualquer contexto”, podemos considerar, por exemplo, os cenários de Esperando Godot e Fim de partida ou o isolamento de muito de seus personagens como Molloy, Malone, Krapp etc.

[5] BECKETT, Samuel. O inominável. Rio de Janeiro: Editora Globo, [s.d.].

[6] HANSEN, João Adolfo. Prefácio in: BECKETT, Samuel. O inominável. Rio de Janeiro: Editora Globo, [s.d.].

[7] ANDRADE, Fábio de Souza. Prefácio in: BECKETT, Samuel. Fim de partida. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

[8] RYNGAERT. Jean-Pierre. Lire En attendant Godot de Samuel Beckett. Paris : Dunod, 1993.

[9] ANDRADE, opus cit.